Diário de Bordo: Granollers, Espanha

Diário de Bordo: Granollers, Espanha

Quer viajar comigo? Vamos lá. Esse espaço é para compartilharmos as emoções de acompanhar as corridas de F1 pelo mundo. Lembra?

Escrevo do meu hotel. Não é em Barcelona, como você talvez pense, mas em Granollers, pequena cidade a 25 quilômetros ao norte da capital da Catalunha.

Por muitos anos, de 1991 a 2005, me hospedava em hotéis próximos as Ramblas, um super calçadão, no centro de Barcelona, onde muitas coisas legais acontecem, em especial à noite: música, artes plásticas, performances etc. É o point! Diferentemente da maior parte do restante da Europa, as noites na Espanha são intensas. Os restaurantes permanecem abertos até tarde, meia noite, por exemplo. No verão as Ramblas pegam fogo!

Onde resido, em Nice, fronteira com a Itália, em quase todos os restaurantes quando chega às 21h45 eles te comunicam que se deseja pedir algo a mais que o faça logo, pois a cozinha vai fechar em breve. Para quem tem cultura paulistana, como eu, esse comportamento soa até ofensivo. Nesse sentido, a Espanha lembra o Brasil, pode-se comer até tarde da noite.

Granollers está a dez minutos de carro do Circuito da Catalunha. Essa é a razão de eu me hospedar no hotel da Emília há tantos anos. A saída de Barcelona para rumar pela A7 Norte, em direção a Girona, fronteira com a França, é complicada de manhã. Perde-se importante tempo no trânsito. Não como São Paulo, claro, cidade inviável nesse sentido.

Mas, como falei, quando se está a trabalho o melhor a fazer é não perder tempo com o trânsito. E em Granoller come-se igualmente muito bem. Importante para mim que tenho no DNA a cultura italiana.

Eu viria de Nice para cá de carro, no sábado. Mas por incrível que pareça, ao ligar para a Europcar, a fim de reservar um carro, fui informado não haver disponibilidade. Não levei a sério. No auge no verão, talvez. No inverno? Fui na sexta-feira com o meu cartão Privilege ao aeroporto de Nice pessoalmente, verificar se era mesmo aquilo. Tinha comigo que sairia da Europcar com um carro alugado.

Qual não foi a minha surpresa ao confirmar existirem somente modelos das categorias mais caras. Nunca aconteceu isso em Nice. Há centenas de carros para alugar. Procurei em outras locadoras.

A supervisora da Europcar me explicou: as empresas estavam substituindo as frotas e havia bem poucos modelos das classes A e B para alugar. Em geral alugo carros médios, não os mais econômicos e tampouco os mais caros. Fiz as contas, ali na hora, no aeroporto.

Caro demais

O carro disponível me custaria 900 euros a semana, com o seguro mínimo, o que não gosto, prefiro o integral, em especial para vir para cá, Granollers. Conto depois. Eu gastaria para percorrer os 640 quilômetros da porta de casa ao hotel, depois regressar, mais os meus deslocamentos por aqui, 1.500 quilômetros, quatro tanques. Algo como 260 euros. O pedágio, ida e volta, custa mais ou menos 120 euros. No total, o carro me sairia 1.280 euros, algo como R$ 5.600.

Subi um andar no aeroporto e perguntei na Vueling, a companhia aérea lowcost da Ibéria, se havia voo para Barcelona no sábado, com retorno na sexta-feira. Resposta: sim. Preço: 238 euros. Pago em dinheiro, minha senhora, disse. Me dá o bilhete, por favor. O avião se tornou, nesse caso, bem mais barato que o carro. Quase sempre viajo com Swiss ou Lufthansa, mas teria de ir a Zurique ou Frankfurt para então regressar a Barcelona. Muito tempo perdido.

Voei no sábado às 9 horas, uma hora apenas de voo. De carro, parando para abastecer de combustível, desabastecer de líquidos indesejáveis e comer algo, preciso de sete horas. O controle de velocidade na França é austero. Nesses anos todos tive uma única multa. Na ótima estrada A8, por exemplo, de três faixas, o limite passa de repente de 130 para 110 km/h e nem sempre você se dá conta.

Viajamos de Nice a Barcelona com o Mediterrâneo o tempo todo do nosso lado esquerdo. Até certo ponto da estrada, do lado direito vemos os Alpes, nessa época do ano com os picos cheios de neve. Há estação de esqui a 90 quilômetros de Nice, Auron, com temperaturas abaixo de zero. Enquanto em Nice, na deliciosa Promenade des Anglais, avenida a beira mar, estamos com 15 graus, distante uma hora de carro, apenas, de Auron.

Ao chegar na fronteira da França com a Espanha, cruzamos a pontinha final da cordilheira dos Pirineus, com montanhas nevadas também. 

Voltando para Granollers

Não venho com carro próprio porque veículos com placa da França são alvos preferenciais de bandidos aqui na região de Barcelona. Já tive experiências desagradáveis. Uma pessoa da família circulava entre Granollers e Barcelona, pela estrada, quando um carro alinhou do lado, uma moça abriu o vidro e pediu para meu familiar parar. Foi o que fez.

As duas desceram dos carros. Enquanto a moça apontava um possível problema no pneu traseiro do lado oposto ao do motorista, o seu acompanhante foi pelo outro lado, recolheu tudo de dentro do carro e ambos saíram depois em disparada. Havia documentos, celular, casacos etc.

Em outra ocasião, no estacionamento de imprensa, dentro da área do autódromo, quebraram, à noite, o vidro do carro para roubar algo que acreditavam haver dentro. Não tinha nada. Tentaram roubar a credencial do veículo, colada no vidro. Rasgaram-na. O carro ficou cheio de estilhaços de vidro.

Carro própria com placa da França por aqui, portanto, não! Quando é alugado faço seguro total, como falei. A polícia me disse que o golpe da estrada era realizado por um grupo de peruanos vivendo ilegalmente por aqui. Os crimes, no entanto, são cometidos por todas nacionalidades.

Do aeroporto de Barcelona para Granollers há duas opções. Táxi, ao custo de 90 euros (R$ 400 ) por ser distante 50 quilômetros, ou trem, 4,20 euros (R$ 18). Você pega o trem no aeroporto mesmo e desce a 150 metros do meu hotel, 55 minutos de viagem. Sem trânsito. Transporte moderno, elétrico, limpo, seguro e não lotado. Obviamente é a minha opção.

Para ir ao circuito, de manhã, ou vou com tantos amigos hóspedes no mesmo hotel ou de táxi, 10 minutos, 15 euros (60 reais). Para voltar, mesma coisa. Em geral estou com carro alugado e procuro ser útil a eles.

Sol de primavera

Olha que procurei, no sábado, mas não encontrei uma única nuvem no céu, assim como no domingo. Tivemos uns 10 graus de manhã e à noite e 15, 16, 17 durante o dia. Tranquilo. Parecia primavera, não inverno.

Tanto no sábado quanto no domingo redigi meus textos em parte do dia. No domingo fui até o autódromo, mesmo sabendo que estava fechado. Mas como conheço o pessoal da área de imprensa desde a inauguração do Circuito da Catalunha, em 1991, e nunca perdi um GP aqui, achei que talvez desse para marcar meu lugar na sala de imprensa, pagar pelo pacote de internet, 60 euros, pela chave do meu armário e garantir o colete da FIA para circular pela pista.

O objetivo era evitar o caos da segunda-feira de manhã, quando todos procurariam fazer o mesmo e apenas duas pessoas são designadas para o trabalho. Com boa fé você perde uma hora na fila, tempo que poderia estar na pista, nos boxes, aprendendo sobre a nova temporada de F1, em especial este ano, com tantos enigmas do novo regulamento por serem ainda decifrados.

A Ferrari havia fechado o autódromo, domingo, a fim de realizar o seu filming day, autorizado pela FIA. As equipes podem completar 100 quilômetros, duas vezes por ano, destinados a promover seus investidores, mas com pneus diferentes dos que a Pirelli distribui ao longo do campeonato. A Pirelli os dá os do tipo bem mais duro, para não servir muito como treino mesmo. A coisa não funciona bem assim. Esses 100 quilômetros são muito proveitosos.

Voltei para o hotel, no domingo, sem entrar no circuito e, claro, perdi tempo precioso na segunda-feira de manhã até obter a minha senha para me conectar. No auge da fila saí e fui andar pelo paddock, rever amigos, como Luca Furbatto, o principal projetista por trás do belo carro da Alfa Romeo. Conversamos bastante. Nos conhecemos há muito. Ele me explicou algumas das suas soluções para o belo modelo C38.

Guardar segredo

Aí entra em cena uma situação não fácil de administrar. Por esta ser a minha 30ª temporada de F1, obviamente conheço muitos dos seus profissionais. Com alguns deles, tenho liberdade para pará-los do paddock, fazer perguntas, solicitar esclarecimentos, enfim, conversar. Em algumas ocasiões, em especial neste início de ano, falamos de vida pessoal também.

Obviamente ficamos sabendo de muita coisa. Mas em seguida vem aquela famosa frase: “Please, don’t quote me “. Não me coloque nas aspas. E, pior ainda: “Never write it, please”, ou nunca escreva isso. Muitas vezes, você sabe bem mais daquilo que está sendo noticiado e não pode se manifestar. Preservar a fonte na F1, no jornalismo, diria, é fundamental.

O caso da Williams agora se enquadra nessa categoria. Não sei quando vou poder escrever o que sei. Eu me sinto mal, por ter uma relação de confiança com que me lê há anos. Mas o que você faria no meu lugar?

Sabe a razão de eu ter, este ano, uma credencial permanente da FIA especial por causa dos meus 450 GPs? Por ser respeitado no meio. Saber guardar segredos até a hora apropriada de colocá-los no ar é essencial nesse processo.

Em 1999, Rubens Barrichello me confidenciou tudo da sua negociação com a Ferrari ainda no GP da França, em junho. Mas só em setembro pude divulgar, no Estadão, a contratação pela Ferrari. Trabalhei por 22 anos no Estadão. Estou desde 2014 no GloboEsporte.com. Infelizmente a reestruturação dos meios de comunicação condenou a existência dos jornais, ao menos como sempre os conhecemos. Agora escrevo para esse gostoso espaço da Youse.

Bom apetite!

Escrevi que gosto de comer bem e que aqui em Granollers há bons restaurantes. Nada chique, por favor, hein? O Naguabo, por exemplo, é um deles. Situa-se no calçadão, 10 minutos a pé do hotel. Começo com pan de coca, um pão do tipo pizza coberto com polpa de tomate fresco, levado ao forno, e coberto com azeite. Maravilhoso. Barato, 3 euros (R$ 13)

Depois vou para um imperdível prato de presunto cru Ibérico pata negra, o máximo, 25 euros (R$ 100), caro. A seguir, pode ser uma carne ou um peixe. Na casa dos 20 euros (R$ 88), muito bem servido. Barato. Por fim, a esperada sobremesa: lógico, crema catalana, insubstituível no primeiro dia, 5 euros (R$ 22). Na França gastaria muito mais e comeria menos.

Já na Itália, onde compro quase tudo o que como em casa, no mercado de Ventimiglia, os preços caem ao nível dos da Espanha. A cidade fica a meia hora de carro de casa. E os produtos são igualmente muito bons, como são os da França, que fique claro, por favor. Vamos falar sobre o que compro na Itália em outra oportunidade. Nem te conto como são as pastas frescas. Ou a comida do Enzo, na tratoria dele e da esposa!

Bem, eu ficaria escrevendo horas, aqui, abusando da sua paciência. Vamos deixar para outro capítulo.

O que gostaria de dizer é que, apesar de minha vivência neste meio da F1, meu interesse pelo evento segue intacto. Como curti, esses dias, ver os modelos de 2019 de perto, conversar com quem está diretamente envolvido na sua concepção, entender o porquê de suas soluções de engenharia. A área técnica da F1 me fascina, ainda que pouco a explore nos meus textos.

Grande abraço a todos, até a próxima!