F1 2019: testes evidenciaram a existência de três pelotões entre as equipes

F1 2019: testes evidenciaram a existência de três pelotões entre as equipes

Bem, os blog são espaços para expressamos nossa opinião, certo? Então vamos lá. O tema é a F1 2019. O que os oito dias de testes, em Barcelona, com os carros concebidos para o novo regulamento, mais evidenciaram. Estive em Barcelona na primeira série de treinos, de 18 a 21 de fevereiro enquanto na segunda, de terça-feira a sexta-feira da semana passada, acompanhei à distância.

Mas mantinha contato direto com amigos jornalistas bem informados que lá estavam, assim como conversei com dois integrantes das equipes, posso dizer amigos também, por nos conhecermos há muitos anos e mantermos relação de proximidade e confiança. Além disso, claro, segui o noticiário nos sites de língua inglesa, italiana, francesa e espanhola que fazem parte do meu dia a dia de trabalho.

Antes de mais nada, aprendi nesses meus anos de F1 que por vezes o que vemos no Circuito da Catalunha não é o que exatamente vem a se passar na etapa de abertura do mundial, de 15 a 17, em Melbourne. Primeiro a pista australiana não é do tipo permanente, nunca há corridas lá, seu asfalto é menos aderente, um número maior de variáveis interfere no desempenho dos carros e no andamento da corrida em relação a um autódromo.

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Mas não creio que será muito diferente do que os testes de Barcelona sugeriram. Para não deixar dúvidas: saímos da pré-temporada com três blocos distintos de equipes na F1 2019. No primeiro, os oito dias de ensaios propuseram que Ferrari tem um carro um pouco mais rápido que o da Mercedes que, por sua vez, do da Red Bull. As três escuderias formariam o primeiro bloco.

As diferenças entre si não estão completamente claras, sendo ainda que James Allison, diretor técnico da Mercedes, e Adrian Newey, coordenador técnico da Red Bull, vão levar para a primeira etapa do calendário importantes peças do conjunto aerodinâmico de seus carros, W10 e RB15-Honda. 

Isso pode melhorar sua performance em relação ao que assistimos na semana passada, quando quase todos os pilotos colocaram pneus hipermacios, C5, os mais macios e aderentes da Pirelli para registrar seus tempos no traçado catalão de 4.655 metros. E a suposta ordem de forças que vimos ser alterada.

Repare como tecnicamente não há como afirmarmos isso ou aquilo. É preciso prudência, usar termos como “provável”, “faz mais sentido”, “não é de se esperar”, “as indicações são estas”.

Nesse primeiro pelotão, entre os 5,534,6 quilômetros percorridos pela Mercedes, 4.640,9, Ferrari, e 3.877,4, Red Bull, quem contaram com um carro mais veloz e equilibrado em uma volta lançada e nas simulações de corrida foram Sebastian Vettel e Charles Leclerc, da Ferrari, o modelo SF90.

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Faz sentido, portanto, acreditarmos que ambos possam ter alguma vantagem tanto na definição do grid como ao longo das 58 voltas da prova australiana. Lembrando o mencionado há pouco: Mercedes e Red Bull devem ter um carro ainda mais modificado que o da Ferrari.

Lewis Hamilton e Valtteri Bottas podem, assim, vir a dispor de um conjunto chassi-unidade motriz tão eficiente quanto o de Vettel e Leclerc. Nada impede de a suposta ordem que emergiu em Barcelona ser alterada. 

Pneus diferentes

No GP da Austrália a Pirelli distribuirá pneus C2, médios, C3, macios, e C4, ultramacios. Nos testes, além deles havia o duro, C1, não usado por ser muito duro, e o C5, hipermacio, instalado no carro somente para estabelecer o melhor tempo. Eles não fazem parte da gama do GP da Espanha, quinto do campeonato, dia 12 de maio.

Por que estou escrevendo isso? Por ser outra variável importante nessa análise de estágio de preparação dos dez times da F1 2019. Com os pneus C2, médios, e C3, macios, por exemplo, a diferença entre Ferrari e Mercedes foi menor do que com o C4, ultramacios, e o C5 hipermacios.

Volto a insistir: isso não quer dizer, necessariamente, que o modelo W10 da Mercedes terá performance mais próxima do SF90 da Ferrari já que o C5 não estará na Austrália. Pode acontecer até o contrário. Mas tomando-se por base o que vimos em Barcelona, a aposta é por diferença menor entre as duas escuderias. Assim como a Red Bull pode chegar um pouco mais. 

Max pouco treinou na sexta-feira, apenas 29 voltas, oficialmente por causa de um problema no câmbio do modelo RB15-Honda. E não usou os pneus C5, como Gasly, no dia anterior e todos os demais pilotos.

O holandês se limitou ao C3, macios, cerca de 6 décimos mais lento que o C4 que por sua vez é algo como seis décimos mais lento também que o C5. Por isso Max apareceu somente com o 17º tempo. Gasly, o 11º, 1min17s091.

Importante destacar que na conversa com um amigo profissional de equipe, ouvi não serem poucos, no meio da F1 2019, que acreditam que o grupo liderado por Mattia Binotto, novo diretor geral da Ferrari, não expôs deliberadamente todo potencial do modelo SF90 e da nova versão da unidade motriz italiana, a fim de não dar referência aos adversários. Pessoalmente acho possível, sim. Se for o caso, a Ferrari poderia se impor sem maior resistência em Melbourne 

Grupo embolado

Como mencionei, há um segundo bloco. Nesse, a luta deve pegar fogo. As diferenças entre Renault, Toro Rosso, Haas e Alfa Romeo, em condição de corrida, devem a ser pequenas, sendo que a McLaren pode vir para a briga também. E, com o grande pacote de peças novas do modelo RP19-Mercedes, a Racing Point surpreende, por que não?

Nos oito dias de treinos a Renault deu mostra de ter dado passo à frente tanto no chassi como, principalmente, na nova unidade motriz. O mesmo podemos afirmar em relação a Toro Rosso e a unidade motriz Honda. A Haas, com seu carro do cockpit para trás igual ao da Ferrari, de novo dispõe de um monoposto veloz. O problema é a confiabilidade, como vimos nos testes.

A McLaren, felizmente, não parece ter projetado um carro tão desequilibrado e impossível de ser desenvolvido como o do ano passado. O modelo MCL34-Renault tem base para crescer, segundo Andrea Stella, um dos seus responsáveis. Carlos Sainz Júnior e Lando Norris, na simulação de classificação mostraram ser provável que não devem ficar no Q1 da definição do grid, como Alonso e o companheiro, Stoffel Vandoorne, em alguns GPs de 2018. 

Em condição de corrida, da  mesma forma é de se esperar que somem bem mais pontos. Em 2018, a McLaren obteve, em 21 eventos, 62 pontos, sexta colocada. A quinta, Haas, 93. A Mercedes, campeã, como a McLaren costumava ser, 655.

Nesse segundo bloco, a Renault e Toro Rosso emitiram sinais de estar no mesmo nível de desempenho. Depois, um pouco mais atrás, Haas, Alfa Romeo e McLaren. 

Maior integração

Uma observação: com Red Bull e Toro Rosso dispondo, agora, na mesma unidade motriz, e a irmã mais jovem com um novo diretor técnico, Jody Egginton, o modelo STR14-Honda do veloz Alexander Albon, estreante, e do mais maduro Daniil Kvyat, recebeu o conjunto traseiro do modelo RB15-Honda. Essa maior interação entre as duas equipes ajuda a explicar a evolução da Toro Rosso.

A Alfa Romeo, agora organização ainda mais próxima da Ferrari, deixou melhor impressão com o modelo C38 na primeira série de treinos no que na segunda. O novo pacote aerodinâmico não funcionou. Nas simulações de corrida, Kimi Raikkonen e Antonio Giovinazzi foram bem. Mas de definição do grid, não.

Ao menos pelo observado no Circuito da Catalunha, Haas, Alfa Romeo e McLaren estariam um pouco atrás de Renault e Toro Rosso.

Aí vem a Racing Point, que pouco treinou nas duas semanas. Na primeira série, o modelo RP19-Mercedes tinha todo o conjunto traseiro do carro de 2018 por não estar pronto. Na segunda, precisou fazer os ajustes que os demais, exceto a Williams, fizeram nos primeiros quatro dias. Mas, como mencionado, seu diretor técnico, Andrew Green, disse que o projeto terá importantes partes novas em Melbourne.

É pouco provável que já de cara o RP19 chegue, por exemplo, no RS19 da Renault e o STR14-Honda da Toro Rosso, mas nesse subpelotão de Haas, Alfa Romeo e McLaren, parece possível. 

Lideranças ineficientes

Por fim a Williams. Não tem desculpa. O time inglês, o melhor da década de 90 na F1, não tinha o modelo FW42-Mercedes pronto para os dois primeiros dias de treinos por questões de planejamento, não financeiras, como se pensou. A má administração técnica de Paddy Lowe, sócio também da Williams, tem sido nos dois últimos anos uma das razões da sua decadência, associada, claro, ao incrível desconhecimento do que é a F1 de Claire Williams, diretora geral.

Robert Kubica estava visivelmente irritado em Barcelona, ao ver que seu time não está preparado para as etapas inicias da temporada. Ele tem grandes ambições profissionais ainda como piloto, aos 34 anos, convenceu a petroleira polonesa PKN Orlen a investir 10 milhões de libras (R$ 50 milhões) no projeto e está tendo de se explicar, agora.

É muito pouco provável que tanto ele quanto o companheiro, o talentoso inglês George Russell, 21 anos, não sejam novamente os últimos nas primeiras corridas, como foram o ano inteiro, em 2018, Lance Stroll e Sergey Sirotkin.

Bem, é isso, amigos. Tomara Ferrari, Mercedes e Red Bull apresentem velocidade e resistência semelhantes, em Melbourne, e assistamos a uma disputa das mais emocionantes, sem conhecermos o vencedor até a bandeirada. E no segundo bloco, da mesma forma, Renault, Toro Rosso, Haas, Alfa Romeo e McLaren nos deixem de pé em certos momentos.

Mais: Racing Point exponha os primeiros sinais saudáveis de seus novos proprietários, levando Stroll e Pérez a engrossar o coro dos pilotos dos cinco times mencionados. E, claro, a Williams pelo menos crie perspectiva de nas demais etapas do mundial poder se aproximar desse pelotão que deve lutar ponto a ponto pelo quarto, quinto e sexto lugares entre os construtores.

Antes dos primeiros treinos livres do GP da Austrália, dia 14 à noite horário brasileiro, por conta da diferença grande de fuso horário, vou voltar a me manifestar no blog aqui de Nice, tenha certeza de que teremos muitas notícias nos próximos dias. Abraços.