Niki Lauda: veja um depoimento inédito do piloto sobre seu acidente

Niki Lauda: veja um depoimento inédito do piloto sobre seu acidente

Niki Lauda era daqueles ricos personagens que, no paddock, gostava de falar com pessoas com quem desenvolveu uma relação de confiança. Sobre os mais diversos assuntos, não apenas F1, como aviação, economia mundial, erupções vulcânicas. 

De fora, parecia ser um homem frio, pouco dado a emoções, bastante objetivo, como era quando foi piloto e conquistou três títulos mundiais, em 1975 e 1977, pela Ferrari, e 1984, McLaren. Falava apenas o indispensável e foi pioneiro na busca por detalhes, por menor que fossem, capazes de tornar seu carro mais rápido.

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Mas quem teve contato mais próximo com Niki Lauda o via de forma distinta: “Tinha grande senso de humor”, revelou Sebastian Vettel, piloto da Ferrari e seu amigo pessoal. Algumas histórias sensibilizavam Lauda ao extremo e era sempre impressionantemente sincero.

Quer ver? Conto uma passagem capaz de ilustrar com perfeição esse lado mais humano e pouco conhecido de Lauda. 

Um Niki Lauda diferente

Eu o conheci melhor em 2001, 2002, quando era diretor da equipe Jaguar. Ele estava sempre nos explicando os motivos de suas decisões, algo inesperado do que sabíamos de Lauda. Parecia gostar de compartilhar seus critérios. O fato é que para aquele pequeno grupo de jornalistas que regularmente se aproximava dele Lauda tornou-se um livro aberto.

Isso fez com que, mesmo depois de deixar a Jaguar, nós mantivéssemos o privilégio de poder lhe fazer perguntas, trocar ideias, algumas até pessoais, sobre suas empresas aéreas, por exemplo. Não ficávamos sem resposta. Em duas ocasiões, Niki Lauda me disse:

“Venha amanhã no motorhome da Red Bull às 9 horas, alguns de seus colegas estarão lá, e enquanto tomamos o café da manhã eu te conto em detalhes”.

Como sabia da minha paixão também por aviação, assunto de algumas conversas com as pessoas que dava atenção, eu queria saber, mesmo anos mais tarde, o que ele, como piloto do mesmo aparelho acidentado em maio de 1991, um Boeing 767 da Lauda Air, tinha a dizer.

Viciado em voar

Descrevo essa experiência com Lauda para mostrar que tinha liberdade para lhe contar o que relato agora.

Na sexta-feira do GP de Abu Dhabi de 2014, fui à área reservada da Mercedes no paddock do Circuito Yas Marina para almoçar. Faltava pouco para as 12h30, horário de abertura para nós comermos. Como ainda produzia para a mídia japonesa, além do GloboEsporte.com, tinha de cronometrar muito bem o meu tempo.

Lauda era sócio da Mercedes. Estava lá sentado, com outra pessoa à mesa, mas não conversavam naquele instante. Eu me aproximei, sinalizando com o indicador, uma espécie de código para pedir autorização. Lauda movimentou a cabeça e sorriu amavelmente. Sinal verde.

Pensou que eu fosse lhe perguntar sobre a disputa do título entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg, seus pilotos, naquela corrida, a última do ano. Mas ao ouvir que eu tinha algo para lhe contar em vez de perguntar a respeito da decisão do mundial, foi expansivo:

– Ufa, finalmente vou ouvir alguma coisa diferente em vez de falar o que penso, as chances de Lewis e Nico. Eu já dei a minha opinião mil vezes, mas as pessoas continuam me perguntando, falou, olhando para o amigo e para mim. Fez sinal com a mão para que eu sentasse.

Envelope de carta

Disse a Lauda que na época em que era diretor da Jaguar, há 13 anos daquela conversa, eu encontrei um envelope que me tocou a alma. Minha mãe pediu que eu verificasse se havia algo do meu interesse em um velho móvel na sua casa, pois ela iria se desfazer dele.

Ao abrir gavetas e portas, encontrei uma caixa de papelão com papéis no interior. Um deles era um envelope de carta dos anos 70, com as laterais listradas em verde e amarelo, como eram na época. Não sei se ainda o são, creio que não. 

Eu o peguei e nos segundos seguintes tentava entender o que significava aquilo, pois estava escrito, à caneta, grande, o nome Andreas Nikolaus Lauda. Depois de um breve tempo, esbocei um sorriso, havia encontrado a ficha na minha memória.

Como fã da F1 desde muito jovem, ainda, eu escrevi aquela carta em agosto de 1976 e pretendia enviá-la, imagine, a Niki Lauda, internado em um hospital na Alemanha, primeiro em Koblenz e depois em Manhaim, lutando para sobreviver ao grave acidente em Nurburgring, dias antes.

Força, campeão

Eu abri o envelope lentamente, estava reencontrando comigo mesmo, mas o de 1976, não o de 2001. Comecei a ler o que estava escrito. Chamou minha atenção a caligrafia, não muito distinta da de hoje. Encontrei na carta um pós-adolescente de comportamento quase pueril, inocente, se expressando em inglês rudimentar. 

Mostrava que eu o seguia desde a primeira corrida em que o vi de perto, no GP Brasil de 1973, na BRM, pedia para resistir a tudo, literalmente “be strong”, desejava vê-lo logo de volta às pistas, pois seria campeão do mundo de novo, como na temporada anterior. A Ferrari tinha um grande carro.

Contei a Niki Lauda, resumidamente, em voz pausada, o que lera naquele dia. Lauda me observava sem se mexer. Ouviu cada palavra com grande atenção, em profundo silêncio. Quando acabei, o vi com os olhos marejados. E naquele instante eu também me sensibilizei. Não esperava uma reação do gênero. Por longos segundos não nos pronunciamos.

A seguir, puxei outro assunto.

Aquele homem esteve bem perto de perder a vida por causa do acidente e 42 dias depois usava um capacete e uma balaclava especiais para suportar o contato com as queimaduras na face, em toda cabeça, para disputar o GP da Itália, pela Ferrari, na velocíssima Monza.

Contei a Lauda que fiquei em dúvida se deveria levar a carta a ele, naqueles dias de Jaguar, ou não. Como tinha coisas muito sérias para resolver, como a enorme pressão da direção da Ford, dona da montadora britânica naquele tempo, para obter melhores resultados, imaginei que seria inoportuno.

Revelações no almoço

Acabei fazendo o meu prato e sentei junto de Lauda, naquela mesa, para almoçar. As emoções foram rapidamente restauradas. Eu lhe contei ainda que não enviei a carta por não saber para onde mandar. 

Não é como hoje que você escreve uma mensagem, um e-mail, e envia ao fã clube do piloto ou para o site oficial da equipe. Em 1976 o documento tinha de se deslocar fisicamente até algum lugar, com endereço de correio. Demos risada das duas realidades distintas. E eu bem que tentei. A carta acabou perdida da mudança. Desconfio que a caixa de papelão inteira foi dispensada.

Niki Lauda me falou que havia uma profunda indignação no comando da Ford com o salário de Eddie Irvine, seu piloto, negócio não definido por ele. O irlandês foi para a Jaguar antes de Lauda a assumir, em 2001. Falava-se em um contrato de US$ 12 milhões (hoje R$ 48 milhões) por ano, impensavelmente alto para um piloto, ainda mais sem nada de grandioso no currículo.

 – Ganhava muito mais que o presidente!

Durante o almoço, perguntei o que ele acreditava ser a causa da perda de controle do carro no seu acidente. Nunca o ouvira falar abertamente do assunto. Havia clima para informalmente tocar no tema.

 – Lembro de tudo. Quebrou a suspensão traseira. Nosso carro (modelo 312T), apesar de estarmos vencendo as corridas, era pesado. A McLaren vinha chegando. Naquele corrida, pela primeira vez usamos as ball joints (juntas esféricas) da suspensão traseira em titânio em vez de aço.

Lauda me disse de forma incisiva. Fez sinal com a mão não desejar mais tocar no assunto. Foi a primeira vez que o vi dizer aquilo, nunca havia lido também. Me pareceu revelador.

Decisão precipitada

Já que o clima no almoço era de total distensão, perguntei a Lauda sobre o mal estar na relação com Daniele Audetto, diretor da Ferrari, em 1976. Audetto ligou para Enzo Ferrari, do hospital em Koblenz, para dizer que o quadro de Lauda era muito preocupante, os médicos não deram muita esperança de sobrevida.

Audetto reside em Bordighera, Itália, ao lado de Nice, e nos encontramos algumas vezes, na sua casa, nos tornamos amigos. Ele me disse que o Comendador pediu para ligar para Emerson Fittipaldi. E o fez no mesmo dia, para oferecer o carro de Lauda na Ferrari. Audetto para mim:

 – Emerson me respondeu que adoraria, mas tinha contrato com a Copersucar, não poderia deixar seu próprio time. Foi então que procurei Carlos Reutemann. Não podíamos imaginar que Niki ficaria de fora somente duas corridas.

Lauda me falou:

 – Eu me entendi depois com Danielle. Disse que antes de acreditar que eu iria morrer, como fez, deveria esperar um tempo para procurar um substituto. Hoje está tudo resolvido. 

Niki Lauda não teve culpa

Sobre aquele café da manhã no motorhome da Red Bull, antes de Niki Lauda se tornar sócio da Mercedes, em 2013, contou que fez questão de provar para o mundo não ter responsabilidade na morte dos 213 passageiros e 10 tripulantes no acidente da Lauda Air.

 – Fui na Boeing, na Pratt&Whitney (fabricante da turbina), precisávamos esclarecer tudo. O que aconteceu todo mundo sabe, o reversor da turbina 1 (lado esquerdo) abriu em pleno voo. Não por falha da nossa manutenção ou da tripulação, mas do sistema da turbina e do avião. 

Lauda me falou mais:

 – Viajei até a Boeing (nos Estados Unidos) para fazer a exata simulação do acidente no simulador. Mesmo sabendo que o reversor iria abrir, naquele ponto do voo, e eu pronto para tomar as ações recomendadas pela Boeing não havia como retomar o controle do avião. Felizmente eles entenderem tudo o que se passou e criaram mais sistemas de segurança para o reversor não abrir com o avião no ar. 

Mais de Lauda;

 – Para mim, o importante foi que com o resultado da investigação eu não precisaria carregar um enorme sentimento de culpa. Aquele dia (o do acidente, 26 de maio) foi o mais difícil da minha vida.

Filho, te falta talento!

Naquelas rodas que formamos ao redor de Lauda, um vez afirmou sem meias palavras quando lhe perguntaram sobre Mathias, seu filho, piloto também.

 – Em 2005, acho, 2005, 2006, eu o chamei para dizer que não tinha talento para sonhar com a F1. Estava na GP2. Lembro de ele jamais esperar ouvir algo desse tipo de mim. Ficou paralisado. Disse que poderia tentar ajudá-lo a disputar o DTM (Campeonato Alemão para carros de Turismo), deveria esquecer monopostos.

O outro filho de Lauda, Lukas, tornou-se o empresário de Mathias. Por terem vivido a maior parte do tempo de suas vidas em Ibiza, na Espanha, falam espanhol e reagem mais à maneira espanhola, latina, que austríaca. São sempre acessíveis quando estão no paddock.

Em 2009, Lauda teve um casal de gêmeos, com Birgit, esposa 30 anos mais jovem, com quem se casou em 2008. Em 2005, ela era comissária da empresa aérea de Lauda e lhe deu um rim para transplante, pois o primeiro rim, cedido pelo irmão, já não funcionava mais.

Quando falávamos com Lauda se ele nos atenderia depois da corrida, era comum nos últimos anos ouvirmos:

 – Falo, mas tem de ser logo em seguida. Tenho helicóptero para me levar ao aeroporto e seguir com meu avião para casa. Tenho dois pequenos me esperando. 

Em geral, Lauda não permanecia muito tempo no autódromo. Houve ocasiões em que nem mesmo esperou a clássica foto do time socando o ar, para celebrar a vitória no GP. Ele usava um Bombardier 6000, um dos maiores jatos executivos do mercado, de custo médio de US$ 60 milhões (R$ 240 milhões). Trabalhava também como embaixador do fabricante canadense.

Fã do avião da Embraer

Para sua segunda companhia aérea, Niki, Lauda viajou pessoalmente a São José dos Campos, sede da Embraer, para retirar o EMB195 adquirido por ele. Nas conversas sobre aviação, disse-me:

 – Que avião delicioso de pilotar. E é um fazedor de dinheiro. Sabendo aproveitá-lo é muito rentável para sua empresa.

A respeito da paralisação quase mundial da aviação, em 2010, por causa da erupção vulcânica na Islândia, bloqueando boa parte dos integrantes da F1 em Xangai, na China, eu inclusive, Niki Lauda deu risada do episódio. Ele se expressou para nós, no paddock, em Barcelona, GP seguinte, exatamente assim:

 – Que exagero! Eu segui voando com a minha aeronave e não vi nada que justificasse essa calamidade, parar o tráfego aéreo mundial. Onde estão com a cabeça? Não é para tudo isso. O transtorno, o prejuízo que causaram não faz sentido. Ok, algumas áreas, no norte da Europa, determinados dias, precisavam mesmo ser controladas, mas o restante não.

Bem, esse é uma relato, apesar de extenso, breve da convivência de um jornalista com Niki Lauda na F1 durante tantos anos. Haveria tanto mais para contar sobre esse personagem que já deixava saudade, por estar fora do paddock há quase um ano.

A cada conversa com Lauda saíamos informados, sua visão inteligente e profundo pragmatismo sempre nos passavam uma mensagem capaz de gerar reflexões. Sem falar que como piloto era uma unanimidade na F1, um dos grandes da história.