Como são as academias de formação de pilotos de Fórmula 1

Competir na Fórmula 1 não é para qualquer um. Por isso mesmo os pilotos passam por anos de treino e experiências nas mais variadas categorias pra ganhar a oportunidade de sentar no banco de um carro da F1. Muitos deles contam com um apoio muito importante: as escolas de pilotos, onde futuras promessas do automobilismo são acompanhadas de perto pelos representantes das grandes equipes. É coisa para poucos e que pode definir a carreira de um novo ídolo do esporte. O jornalista Livio Oricchio conta pra gente um pouco mais sobre esse mundo na reportagem abaixo.
Como são as academias de formação de pilotos de Fórmula 1

Pertencer às academias de formação das equipes de F1. Um grande negócio para os pilotos da F2

Livio Oricchio, de Nice (França)

Se você acha que os chamados olheiros existem apenas no futebol, ou seja, os grandes clubes mantêm profissionais experientes, em geral ex-jogadores, de olho em jovens talentosos para eventualmente serem contratados, saiba que no automobilismo não é diferente.

Equipes como Ferrari, Mercedes, McLaren, Red Bull e Renault, por exemplo, também criam vínculos com jovens pilotos promissores e lhe fornecem todo tipo de preparação para desenvolver sua capacidade para, quem sabe, um dia serem titulares na F1.

O objetivo das escuderias é descobrir primeiro quem pode lhes representar conquistas, vitórias, títulos. Ao mesmo tempo em que evita de os concorrentes contarem com eles, custa muito menos, coisa de milhões de euros, dispor de um piloto formado na sua própria escola.

Tome como exemplo Lewis Hamilton. A McLaren o contratou ainda no início da carreira e o levou até a GP2, nome da F2 até 2016, antes de colocá-lo como titular na F1, em 2007. Hamilton lhe deu o título de 2008.

Desde 2013, Hamilton está na Mercedes. Ele provou representar a garantia, dispondo de um carro eficiente, de lutar pela vitória no campeonato. Se a McLaren voltasse a ter um carro competitivo e desejasse Hamilton de volta, teria de pagar a bagatela de 50 milhões de euros por temporada, o quanto ele está cobrando da Mercedes para renovar por mais três anos. Não está incluído aí o prêmio por conquista de mais títulos. Já tem quatro, três com a Mercedes.

A principal competição que gera pilotos para a F1 é a F2. Como sempre dizemos, a antessala da F1. Suas 12 etapas, este ano, sempre disputadas em duas corridas, uma no sábado e outra no domingo, são realizadas no mesmo fim de semana dos GPs de F1.

Os chefes de equipe da F1 mantêm um olho no que seus times estão fazendo e outro nas corridas da F2, como mencionado, no mesmo autódromo. É bem verdade que no caso do automobilismo, por conta do número de empresas que investem na competição, há muitos interesses em jogo. O critério para a escolha dos jovens pilotos não é necessariamente técnico.


Lewis Hamilton, piloto da Mercedes

Faltou experiência

O piloto mineiro Sérgio Sette Câmara, 20 anos, disputa a F2 nesta temporada pela equipe Carlin. Ele não faz parte de nenhum programa de formação de pilotos mantido pelas equipes de F1, também chamados de academia. Sérgio já esteve no grupo liderado por Helmut Marko, diretor do programa da Red Bull, em 2016, na sua época de F3.

“Mas minha equipe na época (Motopark) não estava no nível das melhores e eu mesmo não tinha o mesmo preparo que tenho hoje, técnico e emocional. E o que conta para o pessoal da Red Bull é resultado. Eu obtive apenas um pódio, segundo lugar talvez na corrida mais difícil do campeonato, nas ruas de Pau, na França, mas não foi suficiente”, relembra o brasileiro.

A filosofia do diretor da Red Bull é clara: obteve resultado ele segue apoiando. Não atingiu o desejado, sumariamente é descartado, sem considerar o que fez com que as conquistas impiedosamente cobradas não fossem alcançadas. Outros programas são, da mesma forma, exigentes, mas levam em conta atenuantes que, de fato, justificam certos resultados.

Sérgio explica: “As academias das equipes de F1 te dão de tudo para você evoluir como piloto. Primeiro porque você está em contato direto com o universo da F1, onde o nível é altíssimo. Os pilotos passam horas nos simuladores, o que faz grande diferença. Essas academias têm treinadores físicos com programas específicos para pilotos, como fortalecer a musculatura mais exigida nesse esporte, desenvolver os reflexos, psicólogos de esporte de alto rendimento, médicos que acompanham tudo. Você é cientificamente treinado e monitorado em tempo integral“.

Sérgio conta mais: “Os pilotos são preparados para que todas situações que vão enfrentar nas pistas não sejam novidade, ou seja, saibam como reagir da melhor maneira possível a tudo aquilo que surgir. É por isso que estamos assistindo a pilotos mais e mais jovens chegando e bem preparados na F1. Aprenderam muito do que vão enfrentar previamente”.


Sérgio Sette Câmara, piloto da Carlin

Desafio de Sérgio é ainda maior

Essa é uma das desvantagens que Sérgio tem este ano. Alguns de seus adversários na luta pelo título da F2 pertencem a academias de equipes de F1. O seu companheiro na Carlin, por exemplo, Lando Norris, é o líder do campeonato. Depois de quatro etapas, oito corridas, soma 100 pontos. Em segundo está Artem Markelov, da Russian Time, com 71, seguido por Alexander Albon, da DAMS, com 71, e George Russell, da ART GP, 62.

Os vários problemas enfrentados por Sérgio, sendo que nem mesmo disputou as duas corridas de Mônaco, o fizeram cair de segundo para a sétima colocação, com 46 pontos.

O que há em comum entre três dos quatro primeiros colocados no campeonato da F2 este ano, o primeiro com o novo carro e motor, bem mais sofisticados que o usado até a temporada passada? Eles fazem parte da academia de equipes de F1. Não é apenas coincidência.

Além de talentosos, por serem escolhidos pelos responsáveis por esses programas de formação, todos são muito bem treinados. Vão para os fins de semana dos eventos da F2 tendo já praticado mais horas nos simuladores, sendo que estes são bem mais fieis à realidade das pistas que os usados pela maioria dos pilotos que irão enfrentar nos GPs, não vinculados às academias.

Sérgio acrescentou, ainda: “Sem falar que depois de acabar o seu trabalho com os engenheiros de seus times na F1, esses pilotos vão para os boxes das equipes de F1 que os contrataram a fim de acompanhar as reuniões dos pilotos com seus técnicos. Dá para ver que quando eles vão fazer um teste com o carro de F1 do time estão já familiarizados com o carro, o motor, o esquema de trabalho, os segredos dos pneus? Tudo isso faz enorme diferença quando você luta por milésimos de segundo como é hoje no automobilismo”.

Por vezes, pertencer a esses programas significa a possibilidade dar sequência à carreira de piloto. As equipes de F1 investem dinheiro para que seus jovens contratados disputem os campeonatos que melhor se mostram ao momento da sua formação.

Os contratados

Lando Norris, 18 anos, inglês, faz parte da academia da McLaren desde fevereiro de 2017. E o seu empresário é ninguém menos de o diretor executivo do Grupo McLaren, o norte-americano Zak Brown. Norris vem de conquistar o título europeu da F3 em 2017, e da F Renault em 2016, dentre outras vitórias.

O vice-líder da F2, o russo Artem Markelov, 23 anos, foi contratado pela Renault em fevereiro deste ano. Não tem um grande retrospecto. Está na quinta temporada na F2. Mas ganhou um contrato com a academia da Renault. Apesar de estar realizando um bom trabalho este ano na F2, a escolha da Renault é daquelas que não atendem critérios exclusivamente técnicos.

George Russell, inglês, 20 anos, não passou despercebido pelos homens da Mercedes, que em janeiro de 2017 o contrataram. Ele foi campeão da GP3 no ano passado, terceiro no Europeu de F3, em 2016, e campeão britânico de F4 em 2014.

Outro piloto da F2 que faz parte de academia da F1 é o canadense Nicholas Latifi, 22 anos, da DAMS. É mais um exemplo em que interesses, além dos técnicos, o levaram até lá. Latifi ocupa o 11º lugar no campeonato, com 26 pontos. Acabou a F2 no ano passado em quinto, foi o 11º na F 3.5 V8 em 2015 e 10º no Europeu de F3 em 2014.

Latifi é piloto de testes da Force India. Mas seu vínculo maior é com a McLaren. Motivo: o pai, o muito bem-sucedido empresário canadense Michael Latifi, comprou no mês passado cerca de 10% do Grupo McLaren, ao pagar para a família real do Barein e o saudita Mansour Ojjeh, sócios do Grupo, 203,8 milhões de libras, algo como R$ 1 bilhão, pelo negócio.

O Grupo McLaren é dono da equipe de F1, da McLaren Automotive, construtora de modelos exclusivos de elevada performance, como McLaren Senna e 570S, e da altamente rentável McLaren Applied Technologies, fornecedora, por exemplo, de todas as centrais eletrônicas de gerenciamento dos carros da F1, F Indy e Nascar.

É bem provável que o pai de Nicholas Latifi esteja pensando em fazer do filho piloto da equipe, mas até agora não demonstrou estar a altura da tradição da McLaren. De qualquer forma, Nicholas tem se aproveitado da estrutura da academia para crescer como piloto.