É proibido ser espontâneo na Fórmula 1

É proibido ser espontâneo na Fórmula 1

A maior parte dos fãs do automobilismo, em especial da F1, quer mesmo é saber de lutas por vitórias, poles e títulos, de preferência roda a roda e curva a curva. Mas o universo das corridas de automóveis é bem mais amplo que a simples disputa esportiva. E cada um dos vários segmentos que as compõem evoluiu da mesma forma que o desenvolvimento tecnológico incorporado aos carros: exponencialmente.

O automobilismo, e a F1 por ser a principal categoria do mundo, reúne profissionais das mais distintas áreas, como engenharia, e suas múltiplas divisões, aerodinâmica, mecânica, eletrônica; marketing, a fim de melhor explorar o elevado investimento; comunicação, destinada a levar a mensagem de sucesso ao telespectador, ouvinte ou leitor. Há outras. Por tudo isso é que as empresas envolvidas costumam selecionar bem quem irá defender seus interesses.

Todo cuidado é pouco. A F1 é um esporte que se apresenta na Oceania, Ásia, Europa, América do Norte, do Sul e no Oriente Médio. Estudar uma boa estratégia de marketing e comunicação, por exemplo, é um desafio, em razão das enormes diferenças culturais entre nações desses continentes. Seus cidadãos falam árabe, inglês, espanhol, russo, francês, alemão, português, por exemplo.

O experiente técnico inglês Steve Nielsen, com anos de trabalho dedicados a Renault e Williams, campeãs do mundo, diz ao repórter da Youse que essa questão das diferenças culturais representa um problema para a F1. Ele conta uma experiência repassada por um diretor de marketing de uma multinacional da área de lactáceos que investia na F1:

“Se ele fizesse uma campanha com fotos e textos do seu produto, leite, por exemplo, em outdoors, teria de levar muito em consideração o país em que a veiculava. Esse profissional me disse ter ficado clássica uma experiência terrível vivida por sua empresa. Eles haviam colocado no outdoor três fotos de uma mulher com um bebê.”

O técnico da F1 dá mais detalhes:

“Na primeira, à esquerda, a mãe e o bebê tinham a impressão de serem carentes das substâncias do leite, cálcio, proteína, carboidratos. Na segunda, foto do meio, mãe e filho já aparecem melhores, por tomar o leite. E na última, à direita, os dois sugerem gozar de plena saúde. Quer dizer, o leite ajudou a recuperá-los.”

Desenlace do episódio:

“Só que a empresa usou a mesma propaganda em um país árabe, onde se lê da direita para a esquerda. E a mensagem repassada foi que se mãe e filho bebessem aquele leite passariam da condição de bem estar, foto da direita, às necessidades de saúde básicas, última à esquerda.”

A história foi contada para exemplificar como as empresas que investem e alto na F1 criaram estruturas muito profissionais para gerir seu marketing e o processo de comunicação de forma a capitalizar com o projeto em vez de acabar bem prejudicadas.

O escocês Jackie Stewart, piloto campeão do mundo em 1969, 1971 e 1973, é uma figura sempre presente na F1. Além de paixão, aos 79 anos, ainda é um homem de ligações fortes com algumas empresas, como a Rolex. Por mais de 40 anos Stewart foi o homem de frente da Ford nos eventos automobilísticos.

O escocês viveu o início do processo de investimento em patrocínios na F1, no fim dos anos 60, e a sua explosão, a partir do começo dos anos 70, com as transmissões de TV dos GPs para o mundo todo.

Efeitos da globalização

Ele lembrou durante conversa com o repórter da Youse na F1 e F2 que outra importante mudança nesse processo aconteceu com a internet.

“De repente, o que você fala está em segundos no ar, acessível a milhões de pessoas através das mídias sociais. O desdobramento dessa nova realidade foi as empresas, com seus assessores de imprensa, passaram a controlar de verdade o que cada membro da equipe fala, notadamente os pilotos.”

Stewart diz mais:

Imagine se alguém faz uma pergunta a um dos pilotos, que é quem o torcedor se interessa em saber, o que ele acha dos conflitos entre árabes e judeus e o piloto, sem uma orientação prévia, assume uma postura radical diante de uma câmara de TV, para um lado ou outro. Isso pode ter consequências profundamente danosas.

O escocês segue explicando:

– Não será apenas a população daquele país que se sentiu atingido pelo piloto que irá boicotar os produtos da marca exposta no seu boné, mas todos os que defendem sua causa também. Não se esqueça de que os investidores da F1, pelo menos a maioria, têm participação nos mais distintos mercados, vivemos a globalização.


A lenda da F1, Jackie Stewart

Tudo é proibido

De fato, acabou a espontaneidade no automobilismo, principalmente na F1, por esse motivo, o risco de pilotos, diretores de equipes, projetistas falarem o que pensam e depois haver consequências sérias para as empresas que fazem as equipes F1 funcionarem.

Ninguém está mais autorizado a dar entrevistas. Elas só acontecem em horários programados, são breves e os entrevistados, previamente treinados.

Um piloto brasileiro que já passou pela F1 e com sucesso disse ao repórter da Youse:

“Nós recebemos uma espécie de cartilha com as perguntas de caráter geral, como o aquecimento global, capazes de nos serem feitas e como temos de reagir. O mais comum é nos pedirem para dizer “não tenho nada a falar sobre isso. Sou piloto e estou muito concentrado no meu trabalho.”

Media Training

Mesmo questões da disputa na pista e potencialmente geradoras de polêmica devem ser tratadas com profissionalismo. Ainda no seu tempo de F1, Rubens Barrichello comentou com o hoje repórter da Youse:

“Temos de ser, sempre, politicamente corretos. Passamos pelo media training. Se você for piloto da Ferrari, mais ainda. Na F1 tudo o que você fala é controlado. Pode ter consequências para você também.”

Barrichello disputou 325 GPs de F1, recordista de longevidade, de 1993 a 2011, pela Jordan, de 1993 a 1996, Stewart, 1997 a 1999, Ferrari, 2000 a 2005, Honda, 2006 a 2008, Brawn GP, 2009, e Williams, 2010 e 2011. Foi duas vezes vice-campeão do mundo, 2002 e 2004.

Rompendo vínculos

Esse quadro de silêncio, de tudo ser proibido para evitar um eventual desgaste das empresas, explicado por Barrichello, gera situações no mínimo estranhas, para sermos politicamente corretos. Se não fôssemos poderíamos dizer situações ridículas.

Imagine isto: o piloto brasileiro Sérgio Sette Câmara, mineiro, 20 anos, patrocinado pela Youse, disputa com brilhantismo a F2, com oito pódios na temporada, tendo sido mais rápido, nas últimas etapas, que o seu companheiro na equipe Carlin, o inglês Lando Norris, contratado para ser titular do time de F1 da McLaren em 2019.

Jornalistas que o conhecem do seu tempo no kart, depois F3, F2 e desenvolveram relações profissionais de alguma proximidade com ele, de repente, ao chegar na F1 devem esquecer por completo tudo o que construíram juntos nos anos anteriores. Isso porque vai aparecer um assessor de imprensa, muitos sem experiência alguma como jornalistas de mídia, de um veículo de comunicação, por viverem apenas a área corporativa, para dizer a quem quiser ouvir:

“A partir de hoje está proibido falar com nosso piloto. Qualquer coisa que vocês homens de imprensa precisarem devem pedir para mim. Nós vamos avaliar a possibilidade de agendar uma entrevista. Mas já adiantamos que os compromissos profissionais de nossos pilotos, com o time e patrocinadores, ocupam quase toda a sua agenda, portanto as entrevistas serão bem esporádicas.”

Muito provavelmente Sérgio terá de conviver com essa situação. A lideranças do Liberty Media, grupo americano dono dos direitos comerciais da F1 desde janeiro de 2017, já enxergaram haver exageros nessa área. Chase Carey, diretor principal, estuda uma grande transformação na F1, também no acesso a seus profissionais, ídolos da torcida, a partir de 2021, quando um novo contrato entre equipes, Liberty Media, através da Formula One Management (FOM), e a FIA irá orientar quase tudo o que se faz na F1.

Bernie Ecclestone, promotor da F1 por 45 anos, de 1971 a janeiro de 2017, hoje com 88 anos, dispensado por Carey, disse ao repórter da Youse, em 2016, dar risada quando vê um piloto caminhando pelo paddock, a área atrás dos boxes, alguém se aproxima e seu assessor ou assessora lhe dizer o que deve falar a quem o procurou.

“Se eu tivesse poder para mudar esse estado de coisas patéticas eu já teria feito. É uma deliberação das equipes e de seus patrocinadores.”

Há exceções

Obviamente não é uma lei, mas uma regra. Há empresas que já enxergaram poder capitalizar mais se os seus pilotos forem espontâneos, mais acessíveis, ainda que orientados, também, a evitar responder sobre temas fora do ambiente dos autódromos. Exatamente pelo motivo exposto, poder provocar grandes desgastes.

Existe hoje nesse universo dos esportes que se deslocam pelo mundo para apresentar seu show o chamado kit informação, distribuído pelas escuderias. É o mesmo para todos. Breves, concebidos de acordo com os interesses de quem os produz, não acrescentam quase nada àquilo que todos já viram.

Os fãs da F1 reclamam de dispor hoje de um padrão bem menor de informações sobre seus ídolos do que no passado. E que quando os veem falando parecem robôs, sugerem ter decorado o texto. E é assim mesmo que as coisas funcionam, com raras exceções, cujos patrocinadores até estimulam seus pilotos a serem autênticos, observando os devidos cuidados, o que, pelo demonstrado, faz todo sentido também.

Sérgio Sette Câmara estará em São Paulo nos dias do GP Brasil de F1, entre 9 e 11 de novembro. Irá ao autódromo de Interlagos. Espera-se para esses dias o anúncio de seu futuro como piloto. As perspectivas são bastante positivas, diante de sólida temporada este ano. A F2 disputará a 12ª e última etapa do seu campeonato dia 25 de novembro, junto com a F1, no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi.

Carro do Sérgio Sette Câmara na F2 (Foto: James Gasperotti)