E se der tudo certo e Sérgio Sette Câmara for contratado para disputar a F1 já em 2019?

E se der tudo certo e Sérgio Sette Câmara for contratado para disputar a F1 já em 2019?

Quem acompanha o noticiário do automobilismo ou segue as reportagens e depoimentos do piloto Sérgio Sette Câmara, da F2, apresentados nas mídias sociais da Youse viu que ele não descarta a possibilidade, embora pequena, de ser contratado por uma equipe de F1 já no ano que vem.

Normalmente é o Sérgio quem se apresenta neste espaço em primeira pessoa. Mas como nesses dias de pausa nos calendários da F2 e da F1 o Sérgio está trabalhando ainda mais intensamente na preparação física, mental e técnica visando as quatro etapas que restam para o fim da temporada, aproveito para, de forma esquiva, redigir um comentário sobre o seu projeto de, tudo dando muito certo, estrear na F1 em 2019.

Alguns elementos para melhor compreensão da exposição a seguir: o campeonato da F2 teve até agora oito etapas. Vamos, agora, para a Bélgica, dias 25 e 26, depois Itália, já na semana seguinte, 1 e 2 de setembro, Rússia, 30, e após um intervalo de quase dois meses, a prova de encerramento, dias 24 e 25 de novembro em Abu Dhabi.

Sérgio, da equipe Carlin, 20 anos, é o sétimo colocado na classificação, com 106 pontos. O líder é o inglês George Russel, da ART, 20 anos, com 171, seguido pelo companheiro Sérgio na Carlin, o inglês Lando Norris, 18 anos, 159, e do tailandês Alexander Albon, da DAMS, 22 anos, 141. Da quarta à sétima posição de Sérgio a luta é ponto a ponto.

“A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) distribui a superlicença, documento necessário para disputar a F1, apenas aos três primeiros colocados na F2.”

O russo Artem Markelov, da Russian Time, 23 anos, quarto colocado, soma 114 pontos, o quinto, o holandês Nyck de Vries, da Perma, 114, o sexto, o italiano Antonio Fuoco, da Charouz, 22 anos, 112. Há, portanto, uma diferença de somente 8 pontos entre Markelov, quarto, e Sérgio, sétimo (114 – 106). Já de Sérgio para Albon, terceiro, 35 pontos os separam (141 – 106).

Por que apresentar a classificação do campeonato? Simples: a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) distribui a superlicença, documento necessário para disputar a F1, apenas aos três primeiros colocados na F2. Para o planejamento avançado de Sérgio poder eventualmente se concretizar é preciso, portanto, que termine a temporada entre os três primeiros.

É um desafio grande. A diferença para Albon é, como mencionado, de 35 pontos. Mas será que apenas um milagre faria Sérgio concluir o ano em terceiro? Nem tanto. Basta que Albon enfrente, por exemplo, um fim de semana de dificuldades como Sérgio teve em Silverstone, na Inglaterra, e o próprio Sérgio obtenha no mesmo GP dois resultados favoráveis.

Na corrida do sábado, a F2 distribui 25 pontos ao vencedor, 18 para o segundo e 15, o terceiro, como na F1. Os dez primeiros recebem pontos, além de o pole position ganhar 4 pontos e o autor da melhor volta na corrida, 2. No domingo, prova mais curta, o primeiro colocado soma 15 pontos, o segundo, 12, e o terceiro, 10. Os oito primeiros levam pontos para casa.

Passando pelo raio X

Agora podemos discutir melhor se Sérgio está preparado para competir na F1 já no ano que vem.

Qual a principal característica de um piloto, aquela que o permitiu seguir carreira até chegar em um estágio avançado como a F2, a antessala da F1? A velocidade, concorda? Se ele não fosse rápido não sairia do kart para a F3 e depois a F2, como foi a trajetória de Sérgio. E ele tem velocidade nas veias?

Um piloto que estabelece a pole position na F2, como Sérgio fez na última etapa, na Hungria, dias 28 e 29 de julho, representa uma resposta, não acha? Mas um feito isolado não é um bom universo de análise, você pode pensar. Verdade. Mas vimos nas sessões de classificação da F2, este ano, Sérgio estar sempre entre os primeiros colocados. E seu elenco de adversários nesta temporada na F2 está repleto de pilotos bastante talentosos. É uma geração pródiga.

Essa contestação circula com desenvoltura pelo paddock da F1. Não é por acaso que o líder do campeonato, Russell, tem contrato com a Mercedes e o diretor do time alemão, Toto Wolff, o quer ver na F1, de todas as formas, já em 2019. O mesmo vale para Norris, da academia da McLaren e empresariado pelo diretor executivo do Grupo McLaren, o norte-americano Zak Brown. Outros pilotos bem conceituados também são o holandês Vries, da mesma forma da academia da McLaren, e o russo Markelov, da academia da Renault.

Estar na frente dessas feras é um atestado dos dotes de velocidade de Sérgio nas classificações, mesmo este não sendo o predicado em que recebe a nota mais alta. Há ainda espaço para algum crescimento, notadamente por causa das características dos pneus Pirelli, bem particulares. Alguns pilotos, junto de suas equipes, descobrem certos detalhes que lhes permitem ser alguns milésimos de segundo mais rápidos. As diferenças nesse nível de competição são medidas em milésimos de segundo.

Outro parâmetro para conhecermos um piloto é a constância associada a sua velocidade. Não adiante ser apenas rápido em uma volta e apresentar elevado índice de erros ao logo da uma hora de corrida no sábado, por exemplo. Aqui Sérgio está no nível dos mais capazes. Raramente escapa da pista, toma decisões equivocadas, se envolve em confusão ou submete o equipamento a esforços desnecessários, levando à ruptura dos componentes. Como regra, Sérgio recebe a bandeirada, algo de fundamental importância no automobilismo.

Os pilotos nunca estão sozinhos nos circuitos. No caso da F2, competem com outros 19 adversários. Saber postar-se nas disputas, entender onde melhor colocar o carro para ultrapassar um adversário ou mesmo defender sua posição é outro parâmetro de grande importância na avaliação de um piloto, em especial na F2, onde chassi, motor e pneus são os mesmos para todos os concorrentes. A importância do piloto cresce de importância pela relativa equivalência de performance do equipamento.

Sair-se bem nesse exame de posicionamento na pista equivale a manter-se em primeiro, poder crescer na classificação da corrida ou, se não for o caso, perder posições em uma categoria onde as ultrapassagens são difíceis em condições normais.

Nesse particular, quase todos os pilotos da F2 têm o que evoluir, pela própria juventude, ainda que todos venham de várias temporadas nas pistas, desde o kart. O caso de Sérgio não é diferente, é outra área a ser investida.

Saber interagir, fundamental

Com a evolução desse esporte, o piloto hoje não se limita a sentar no cockpit e acelerar. A velocidade e o equilíbrio do carro provêm da capacidade que o piloto tem de interagir com os muitos recursos existentes, mesmo na F2. Na F1 esse fator cresce exponencialmente. Como na aviação, o piloto deve antes de deixar os boxes fazer o chamado ground school do carro, familiarizar-se com esses recursos e aprender como explorá-los.

Não é tarefa das mais simples. Pilotos de outras épocas, onde o que importava era sentar no cockpit e se preocupar apenas em verificar a pressão do óleo do motor e a temperatura da água, dizem ser extremamente complexo pilotar, tirar os olhos da pista e intervir nos vários botões de comando, localizados no volante, para ajustar o carro às diferentes realidades dos pneus, freios, ou mesmo da pista durante a competição.

Nesse aspecto da interatividade com o equipamento Sérgio também tira nota das mais elevadas. Não esconde gostar de estudar os recursos do carro e desfrutar de toda sua potencialidade.

No automobilismo há pilotos reativos e reflexivos. Os reativos são, em geral, menos cerebrais, reagem aos estímulos instintivamente. Esses tinham mais espaço nos esportes a motor de um tempo atrás. Nas últimas décadas, esse dom segue sendo essencial, mas a pilotagem exige reflexões. Por essa razão os pilotos que se enquadram na classe dos reflexivos tendem a se dar melhor hoje nas pistas. Lembra da necessidade imperiosa de interagir com os recursos do carro exposta há pouco?

Sérgio é um piloto que a exemplo da atual geração de talentos da F2 entra no grupo dos reflexivos. Enquanto conduzem pensam na melhor resposta para cada condição da disputa. Suas manobras, decisões são o fruto de confabulações consigo próprio. O que não que dizer que todas representem a melhor solução para aquela condição. Mas não foram fruto do acaso. Tomar as melhores decisões é um fator de diferenciação.

No automobilismo moderno, notadamente na F1, esse vestibular perdeu um pouco o peso por conta de o piloto fazer parte de um grupo de profissionais altamente qualificados, e capaz, para tomar as decisões em conjunto. As conversas no rádio, bastante esporádicas no passado, transformaram-se hoje em algo corriqueiro. O piloto tem de saber contornar uma curva a 260 km/h enquanto o seu engenheiro lhe passa uma informação importante.

“O piloto tem de saber contornar uma curva a 260 km/h enquanto o seu engenheiro lhe passa uma informação importante.”

Hora de parar para o pit stop, indicação do que mexer nos comandos para atenuar um problema ou tornar o carro mais rápido, qual o melhor ritmo a ser imposto para determinada estratégia dar certo são exemplos de ações realizadas em conjunto com a equipe. Mas como quem está na pista é o piloto, na maioria dos casos ele é quem dispõe dos elementos mais apropriados para sugerir o que fazer.

Obviamente na F2 os pilotos já têm essa responsabilidade. Na F1, porém, ganha outra dimensão. As corridas são bem mais longas, os pneus têm outro comportamento e há muito mais o que possa ser feito no carro e pelo time para a obtenção de um melhor resultado.

A classificação final na competição representa o resultado do trabalho conjunto do piloto com o seu grupo de engenheiros. Deve haver grande entrosamento e harmonia entre eles. No que se refere ao Sérgio, seus cinco pódios este ano propõem estar em bom estágio de evolução, embora, como sempre exposto, é preciso avançar mais.

Sérgio e seu engenheiro, o italiano Daniele Rossi, que já trabalhou com grandes nomes nas categorias de formação, como Sebastian Vettel, na World Series, se entendem muito bem. Se Sérgio se transferisse para a F1, é provável que nesse particular se desse bem, apesar da maior complexidade.

Equilíbrio emocional, um desafio

Na F1, os próprios pilotos dizem que o desafio emocional é enorme. A exposição para a mídia e o público são muito maiores, bem como os investimentos. Para não falar das cobranças. Os pilotos representam ainda mais as marcas que têm seus nomes expostos no carro, macacão, capacete, boné. É preciso ter a capacidade de no mesmo fim de semana de GP conciliar o intenso e difícil trabalho de acertar o carro à pista com os vários compromissos promocionais. Sorrir diante dos diretores das empresas e seus convidados no paddock club instantes depois, apenas, de deixar uma reunião tensa com os engenheiros que será retomada a seguir.

Nesse vestibular, não é possível conhecer muito dos pilotos da F2, pois sua rotina no fim de semana de corrida quase que se limita a trabalhar com a equipe. São poucos os que já atendem a compromissos com patrocinadores, como na F1. E é algo capaz de influenciar diretamente os resultados. Decisões erradas nas reuniões com os engenheiros em geral implicam dispor de um carro não bem ajustado para o circuito, em outras palavras, ter chances menores de grandes resultados, o esperado sempre por todos, notadamente na F1. Não temos elementos para saber como Sérgio e a maioria na F2 se sairia nesse teste.

Agora de forma bem clara e objetiva, depois dessa nossa conversa que nem abrangemos tudo, responda, por favor, você acha que o Sérgio está preparado para encarar a F1 já em 2019?

Eu tenho o mesmo direito de opinar de vocês, certo?

Minha leitura é sim. Ele criou uma boa base para crescer quando chegar a F1 ainda que, como mencionado, os desafios de disputar o mundial são um tanto distintos e certas respostas só teremos quando ele lá estiver. A história da F1 mostra não haver uma lei. O piloto foi muito bem na F3, GP3, F2 portanto fará sucesso na F1. Falso. Como vale também o contrário, o piloto não teve tanto destaque nas categorias de formação logo não faz sentido que se dará bem na F1. Falso.

Desde a introdução da ultraeletrônica no automobilismo, há algumas décadas, dentre outros fatores, o número de variáveis que interfere na definição de seja lá o que for, sessão de classificação ou corrida, se tornou tão grande que é bem fácil obtermos uma resultado mascarado, não um reflexo fiel da realidade. Mais oportunidades surgem para serem exploradas na competição.

Repare como aquela característica de um piloto ser mais reflexivo que reativo se encaixa melhor nessa natureza de exame. E Sérgio faz parte desse grupo.

Em resumo, na hipótese de Sérgio terminar entre os três primeiros e ainda conseguir uma vaga na F1 em 2019, pouco provável mas não impossível, podemos, sim, estar otimistas quanto à possibilidade de ele crescer na competição.

Por enquanto, apenas isso, porque, como a história demonstra, as exigências de toda natureza da F1 são bem mais severas das enfrentadas até agora. E cada um reage de uma maneira, até agora desconhecida, a tudo isso. Uns surpreendem positivamente, como os predicados de Sérgio sugerem, outros não correspondem ao que se esperava deles diante do demonstrado até então.