Em Abu Dhabi, Sette Câmara quer a vitória que não teve este ano

Em Abu Dhabi, Sette Câmara quer a vitória que não teve este ano

A última vez que os vinte pilotos que disputam o Campeonato Internacional de F2 aceleraram seus carros foi no distante 30 de setembro, em Sochi, no GP da Rússia. Pois no próximo fim de semana, portanto quase dois meses depois, a competição estará de volta. É para a disputa da 12ª e última etapa da temporada, no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

Há muita coisa em jogo. A principal delas é a definição do campeão de 2018. Dois pilotos estão na luta: o líder na classificação, o inglês George Russell, 20 anos, da equipe ART, com 248 pontos, e o tailandês, criado na Inglaterra, Alexander Albon, 22 anos, da DAMS, com 211. Como a cada etapa da F2, sempre realizada com duas corridas, uma no sábado e outra no domingo, há 48 pontos em disputa e Russell tem 37 pontos de vantagem para Albon (248 – 211), suas chances de conquistar o título são bem elevadas.

O GP de Abu Dhabi não se limitará a definir o campeão e vice. Há grande interesse nas demais colocações. Isso porque até o décimo lugar a FIA distribui pontos para a carteira de pilotos. Para competir na F1, eles devem somar 40 pontos em três anos. Os três primeiros na F2 ganham já os 40 pontos necessários para a FIA lhes dar a superlicença, documento emitido pela entidade para correr na F1.

Mas a partir daí até o décimo colocado os pontos vão diminuindo. O quarto recebe 30, o quinto, 20, o sexto 10, por exemplo. Uma colocação à frente dentre essas três posições finais no campeonato implica 10 pontos a mais na carteira destinada a obter a superlicença. É uma diferença importante. A luta para avançar na classificação final será intensa e constitui uma das atrações da prova no Circuito Yas Marina para quem gosta de acompanhar a F2 em maior profundidade.

É nesse cenário de luta por mais pontos para avançar na classificação e ficar ainda mais perto de competir na F1 que o mineiro Sérgio Sette Câmara, 20 anos, da equipe Carlin, se encontra. Esteve sempre dentre os mais rápidos da F2 este ano, como atestam seus oito pódios e a pole position no GP da Hungria. Mas por uma combinação de razões, como quebras do equipamento e o acidente em Mônaco, que o impossibilitou de correr, Sérgio é apenas o sexto no campeonato, com 164 pontos.

Dia 6, pouco antes do evento da F1 em Interlagos, a McLaren anunciou Sérgio como piloto do seu programa de desenvolvimento do carro. Seguirá os trabalhos da equipe na F1, fará boa parte dos experimentos no simulador e vai também acelerar o carro de 2019 nos testes coletivos. Será um excelente aprendizado.

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Como a meta de Sérgio é, como de todos na F2, competir na F1, e no seu caso em 2020, ele precisa acumular o máximo de pontos. Ainda que terá a temporada de 2019 na F2 para atingir o objetivo de obter a superlicença. As três equipes mais bem colocadas no campeonato, a atual de Sérgio, Carlin, a ART, do provável campeão Russell, e a DAMS, do hoje vice Albon, fizeram convites formais para o mineiro ser seu piloto em 2019.

As chances de Sérgio terminar o próximo campeonato da F2 entre os três primeiros são grandes. Isso já lhe garantiria a superlicença. Mas é nunca é demais já acumular bons pontos este ano.

De olho no primeiro lugar

Sérgio Sette Câmara em depoiumento a Livio Oricchio

Oi pessoal. Faz um tempinho que não trocamos uma ideia aqui nesse espaço onde me sinto realmente à vontade para me expressar. Posso falar uma coisa? Sentia falta.

Nesses quase dois meses sem corrida na F2, me dediquei a um importante programa de treinamento. Não daqueles que vocês não tem tempo para nada. Não vejo essas programações extenuantes como o melhor caminho para você crescer como piloto. Você deve, sim, claro, suar a roupa de preparação física e o macacão, por exemplo, andando de kart, como fiz, mas sem exageros extremos como às vezes ouço. Comigo, ao menos, não funciona.

Horas no simulador

Assim, fui para o simulador da minha equipe na Inglaterra, me reuni com o meu ótimo engenheiro, Daniele Rossi, treinei também naquele simulador que já falei aqui, na Holanda, onde conheço o pessoal lá e eles trabalham bem, e, por que não? Curti a minha querida família no Brasil. Permaneci um tempo no país, em especial em Belo Horizonte, de onde venho. Sem nunca descuidar, óbvio, da preparação física.

Eu me sinto em ótima condição para disputar um grande fim de semana na F2 nessa interessante pista do Circuito Yas Marina. Físicas e mentais. Essa parada no campeonato tem o lado ruim, que é você estar no maior pique, em setembro, e de repente permanecer dois meses longe dos carros da F2. Mas existe também o lado bom, você ir para as duas corridas finais do campeonato como se fosse a etapa de abertura. E penso que quase todos os pilotos devem se sentir assim.

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Qual o meu objetivo no fim de semana? Olha, amigo, quando olho para trás, este ano, e vejo que já cheguei oito vezes no pódio e larguei em primeiro em uma pista onde o piloto faz muita diferença, a de Budapeste, percebo que faltou algo: uma vitória. Tendo como meta obtê-la é que escrevo essa minha coluna.

No ano passado eu venci em Spa-Francorchamps, na Bélgica. Agora sinto que posso de novo celebrar o primeiro lugar. Ao menos como piloto não hesito em acreditar. Pelo contrário, confio plenamente. Mas estamos falando de automobilismo, um esporte onde um número enorme de variáveis interfere no resultado final. Por exemplo a eficiência do seu equipamento e do próprio time.

Do que conheço dos 5.554 metros, 21 curvas, do Circuito Yas Marina, e de como nós da Carlin fomos rápidos no último trecho da pista de Barcelona, diria que diante da similaridade entre um segmento e outro acredito que irei dispor de um carro rápido no fim de semana. De novo, em especial na F2 este ano, nunca sabemos ao certo o que pode acontecer. Vimos já grandes surpresas. A lógica sugere que deveremos estar dentre os protagonistas do evento.

Adoro correr à noite

Se eu gosto de correr lá? Adoro. Vocês não têm ideia o quanto aumenta a sensação de velocidade quando corrermos de noite. Em Abu Dhabi começamos de dia e terminamos os treinos ou a corrida à noite. É um desafio. A temperatura do asfalto cai bastante e o comportamento do carro muda. Precisamos encontrar um acerto médio que torne o carro equilibrado em uma e outra condição.

Sinto falta de uma curva ou mesmo uma seção de alta velocidade em Abu Dhabi, mas em compensação há várias curvas de 90 graus, como tanto gosta o seu criador, o arquiteto alemão Herman Tilke, e que tornam o traçado em um certo ponto parecido com os de rua. Se vocês me leem aqui sabem que eu gosto de pistas de rua.

A diferença maior é que lá há duas grandes retas e com uma característica que lembra Interlagos. Na primeira reta você pode usar o DRS, o flap móvel, a redução de ângulo do aerofólio traseiro, para ultrapassar um adversário. Mas no fim dessa reta existe uma chicane e já na saída dela outra grande reta. Como em Interlagos. A reta dos boxes e a reta oposta, depois do S do Senna.

Assim, podemos ultrapassar um concorrente na primeira reta, com o uso do DRS, e ele, na segunda, também com o DRS, fazer o mesmo. Precisamos medir bem a hora de realizar a ultrapassagem para realmente ganharmos a posição do carro à frente.

Avançar na classificação final

Em termos de campeonato, o que almejo? Se você observar a classificação, a rigor posso teoricamente terminar até mesmo em terceiro lugar, o que já me daria a superlicença. O terceiro é o meu companheiro na Carlin, o inglês Lando Norris, com 197 pontos Eu tenho, em sexto, 164. São 33 pontos de diferença e haverá 48 pontos em jogo. Muito difícil, mas não impossível.

Mais realista é pensar em avançar para o quinto ou o quarto lugar. Com somente dois pontos a mais que eu, 166, está o russo Artem Markelov, da Russian Time. E com 20 a mais, 184, em quarto, está o holandês Nick de Vries, da Prema. Eu preciso de um fim de semana onde tudo se encaixe e eles enfrentem algumas das muitas dificuldades que eu experimentei este ano, ainda que não lhes deseje.

Nunca é demais lembrar que uma posição apenas, à frente na classificação final do campeonato, no meu caso significam 10 pontos a mais na carteira da superlicença. Nesse sentido estou tranquilo porque o sétimo colocado, o italiano Antonio Fuoco, da Charouz, tem 120 pontos, ou importantes 44 a menos.

Deixei para o fim o tema da McLaren. Vocês viram que sou agora piloto do grupo. É uma imensa satisfação, amigos, o primeiro resultado mais concreto de um extenso e desgastante planejamento de chegar um dia na F1. Tenho total consciência de que sou, por enquanto, apenas o piloto de desenvolvimento e testes da McLaren. Mas hoje essa é a entrada mais indicada para um jovem piloto se tornar titular na F1. Os ensinamentos são tantos, esse mundo é tão distinto do que estamos acostumados que é de fato preciso passar por essa experiência prévia antes de alinhar o carro em um GP de F1.

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Este ano, o Russell, virtual campeão da F2, assinou com a Williams para 2019. Já trabalhava para a Mercedes antes. O Lando assinou com a McLaren para ser titular. Mas já está no time há algum tempo. Agora chegou a minha vez de me submeter a esse curso de aprendizado para em 2020, como é a minha meta, disputar o mundial de F1. Antes disso, porém, terei o desafio de disputar mais uma temporada na F2, em 2019. Em breve vocês saberão por qual equipe. Não tenho outro objetivo senão o de lutar pelo título.

Amigos, nos falamos, agora, depois das duas corridas de Abu Dhabi. Torça para que eu tenha um fim de semana como, por exemplo, o primeiro do ano, no Barein, com dois pódios, sendo que um deles, agora, com vitória. Grande abraço!