Empresários e pilotos F1: Como funciona essa relação cada vez mais importante

Empresários e pilotos F1: Como funciona essa relação cada vez mais importante

Nas semanas anteriores ao último GP da Itália, disputado dia 2 de setembro, a imprensa italiana noticiou que o francês Nicolas Todt, empresário do novo astro emergente da F1, o piloto monegasco Charles Leclerc, viajou a Maranello, sede da Ferrari, com frequência. Em um segundo momento, os textos mencionavam que as negociações entre Nicolas e Maurizio Arrivabene, diretor da equipe, estavam adiantadas. E nos dias na prova, em Monza, a mítica escuderia italiana confirmou que Leclerc substituiria Kimi Raikkonen em 2019.

O nível de envolvimento dos pilotos de F1, hoje, com tudo que os cercam, é grande. Eles representam as equipes, os patrocinadores, do time e pessoais, a competição em si, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA), lideram projetos educacionais e até humanitários. Os valores destinados a essas operações todas são elevados. Os contratos dos campeões, ou vencedores do campeonato em potencial, estão dentre os maiores dentre todos os esportistas do mundo.

Lewis Hamilton, dos cinco títulos mundiais, assinou novo contrato com a Mercedes, em julho, para disputar as temporadas de 2019 e 2020. Ganhará em cada uma delas 40 milhões de libras esterlinas, ou R$ 200 milhões, mais prêmios, 100 mil dólares (R$ 380 mil) por pole position, 300 mil dólares (R$ 1,2 milhão) por vitória e um valor importante no caso de ganhar o campeonato pela sexta vez.

Por causa da complexidade da função que se estende para bem além de conduzir um veículo em altíssima velocidade, e por isso mesmo correr certos riscos, os pilotos contam com empresários, experientes profissionais capazes de orientá-los a obter o melhor na relação com suas escuderias e patrocinadores e organizar sua vida. São raros os casos dos que conduzem as conversas sozinhos, se limitam a apenas contratar um advogado para lhes dar respaldo jurídico nas negociações, na discussão do contrato. Hamilton é hoje um deles.

Acabamos de ver que o filho do presidente da FIA, Jean Todt, o empresário Nicolas Todt, teve papel preponderante para Leclerc tornar-se piloto da escuderia dos sonhos da maioria dos pilotos, a Ferrari. E certamente recebendo um valor importante. Acredita-se não ser menor de 8 milhões de euros (R$ 35 milhões) por ano. Para um novato.

Leclerc estreou este ano na F1, pela Sauber, com excelente performance, dez vezes nos pontos. A Sauber foi oitava, com 48 pontos. Em 2017, os suíços, com dois pilotos, marcaram pontos duas vezes apenas, cinco no total, décimos e últimos colocados.


Charles Leclerc será novo piloto da Ferrari em 2019

O monegasco tem 20 anos. Pode ser extremamente talentoso para pilotar, mas não tem vivência no mundo dos negócios, mesmo de vida, não saberia liderar as conversas com Arrivabene a ponto de inserir no seu contrato as garantias, de toda natureza, que Nicolas provavelmente conseguiu.

Um empresário deve estar sempre atento às movimentações do mercado para definir com o menor risco possível onde colocar seu piloto. Deve também entender o que tem nas mãos, o seu real valor, para negociar com as equipes, saber pedir, recuar, avançar, defender cláusulas que proporcionem ao piloto as melhores condições para poder expor suas habilidades”, diz Nicolas.

Ele ainda é o empresário de Felipe Massa. Em 2000, Massa viajou para a Europa para disputar a F Renault 2.0, série europeia e italiana, pela italiana CRAM. Tinha verba para seis corridas. Um empresário italiano investiu para Massa completar os dois campeonatos, mas ficaria depois com uma parte do que recebesse como piloto profissional, caso fizesse sucesso. Massa venceu as duas competições e passou, em 2001, para a F3000 europeia, título que também conquistou.

Nicolas adquiriu os direitos do empresário que investiu em Massa, esteve com ele nos seus 16 anos de F1 e o acompanhará no próximo desafio profissional, nas três temporadas seguintes da F E, disputada com carros elétricos, pela equipe Venturi Grand Prix.

Personagens históricos

A F1 já teve empresários lendários, como Julian Jacob, de Ayrton Senna, os polêmicos Flavio Briatore, de Fernando Alonso, diretor também da Benetton, Renault, e Willi Weber, de Michael Schumacher.

Briatore ainda participa do mundo profissional de Alonso, mesmo agora com o espanhol desligando-se da F1. O italiano de 68 anos diz sempre:

“Um bom empresário deve contar com total confiança do seu piloto. Este deve saber que ninguém defenderia melhor seus interesses do que ele. Minha obrigação é trazer tudo pronto para os pilotos, para que apenas leem os contratos e assinem. Tenho ainda, eu me meu grupo de trabalho, bem entendido, de fazer com que meus pilotos não precisem pensar em nada, essencialmente apenas em pilotar. Eu negocio e meu pessoal se responsabiliza por cuidar até da agenda deles.”

No caso de Briatore, quando fala “eu negocio”, quer dizer que discute consigo próprio que valor pagar aos pilotos, pois no caso de Alonso e de Giancarlo Fisichella ele os empresariava e, ao mesmo tempo, administrava a Renault, com quem foi duas vezes campeão do mundo associado ao espanhol.


Flavio Briatore ao lado do jovem Fernando Alonso

A exemplo de Massa que teve quem bancou parte do seu início de carreira e depois passou a ficar com uma porcentagem de seus contratos, Nicolas, a partir de 2001, o finlandês Kimi Raikkonen precisou também de um investidor. Seu pai tinha três empregos na época do filho no filho, mas não teria como levá-lo ao automobilismo.

O empresário inglês David Robertson pagou para ele disputar a F Renault na Inglaterra e, tendo sido campeão, ganhou um teste com o carro de F1 da Sauber. O dono da escuderia, Peter Sauber, ficou tão impressionado que contratou Raikkonen, mesmo ele tendo um único ano de experiência e com carros de 200 cavalos. David morreu em 2014, mas seu filho, Steve, sempre ao lado do pai, assumiu a carreira de Raikkonen.

Investimento de alto risco

Esse tipo de relação em que o empresário investe para depois capitalizar é relativamente comum.

“É sempre um risco, não são valores baixos, uma temporada na F3 custa 800 mil euros, na F2, nada menos de 1,5 milhão, e não temos nenhuma garantia de que o piloto em algum momento fará com que recuperemos esse dinheiro, dizia Toto Wolff, hoje sócio e diretor da equipe Mercedes de F1, quando ainda era apenas sócio da Williams e empresariava pilotos como Valtteri Bottas, por exemplo.”

“Se você acerta, não apenas em relação ao seu piloto ser talentoso, mas se ele dispõe de um meio de demonstrar sua real capacidade, você pode capitalizar com isso ao longo dos anos. Mas se não for o caso, e posso dizer ser o mais comum, a perda é grande. Como falei não estamos diante de valores baixos. Eu diria ser um investimento de alto risco.”

O caso do brasileiro

Sérgio Sette Câmara, mineiro, 20 anos, disputou este ano sua segunda temporada na F2. Em 2019, vai para a terceira, agora na equipe francesa DAMS. Neste ano competiu pela inglesa Carlin, mas teve uma série de problemas mecânicos que justificam, na maior parte, ter terminado o campeonato em sexto. Sua meta é lutar pelo título da F2, no ano que vem, e ganhar uma vaga de titular na F1.

Já deu um passo importante, ao ver seu talento reconhecido pela McLaren, este ano, depois de oito pódios. Ele será piloto de testes e o responsável pelo desenvolvimento do carro no simulador. Terá, portanto, contato com o dia a dia de uma organização da F1 para, em 2020, dando tudo certo em 2019, ser contratado como titular por uma equipe de F1.


Sérgio Sette Câmara no carra da equipe DAMS de F2

O espanhol Albert Resclosa e o empresário de Fernando Alonso, Luiz Abad Garcia, cuidam da carreira de Sérgio. No caso de Rescloca, até da formação do piloto como homem:

“Sérgio veio para a Europa com 15 anos, menor de idade, portanto. Minhas atribuições se estendiam para além de lhe dar formação técnica no kart, mas em certo sentido substituir, em parte, o papel da família. Cuidamos para que fosse à escola, estivemos atento ao seu aproveitamento como aluno, se o tratamento dentário está ok, compramos roupas juntos, sem falar que pôde sempre contar com um lar para recebê-lo, para que não se sentisse sozinho.”

Como se vê, em alguns casos, os empresários assumem os pilotos quase que por completo. Muitos não são europeus e os campeonatos de kart na Itália e nas disputas continentais são os que melhor os formam. Ocorre que o kart, nesse nível, abriga essencialmente adolescentes, meninos que desejam seguir carreira para um dia, ao menos a maioria, chegar na F1.

Já vi muitos meninos que por conta de estarem aqui na Europa sozinhos ou com um amigo muito jovem também, por exemplo, por não terem quem os acolhe, oriente, imponha alguma disciplina, acabam por se desestimular. A maioria deles, pela impossibilidade de encarar o competitivo mundo do kart com a seriedade necessária, não obtém resultados, auxiliando a que se perguntem o que estão fazendo tão longe de casa”, explica Resclosa.

A função de Abad é supervisionar a condução do que o grupo que assiste Sérgio está fazendo, por sua experiência de quase 20 anos de F1, com um piloto do calibre de Alonso, alvo das atenções dos times, patrocinadores, da mídia e, claro, dos fãs.

Apoio moral

Faz parte do elenco de responsabilidades do empresário prestar ajuda psicológica ao piloto. Rescolha explica:

“Na Hungria, por exemplo, Sérgio estabeleceu a pole position. Mas as coisas não fluíram como o imaginado na corrida. Cabe a nós, diante do que conhecemos do piloto, saber como se aproximar e quando. Deixá-lo 20, 30 minutos sozinho, digerindo os acontecimentos indesejáveis, e depois começar a conversa, procurar apoiá-lo, descobrir o que aconteceu para não dar certo e como evitar que ocorrer novamente.”

Se o piloto sofre um acidente, sempre possível nesse esporte onde eles se deslocam a 300 km/h, a ação dos empresários ganha outra dimensão.

É em você que eles confiam. Você tem de, dentro do possível, estar o máximo de tempo ao seu lado, como se passou com Sérgio, em Mônaco. No hospital do circuito estava tenso, receoso de precisar de um bom tempo para se recuperar da lesão do punho. Acredito que o ajudei a se acalmar e fazê-lo entender, juntos dos médicos, que não havia a gravidade imaginada.”


Sérgio Sette Câmara

Falta uma pergunta fundamental, nesses histórias todas entre pilotos e seus empresários: quanto ganham esse profissionais que, pelo exposto, devem ser bem preparados em várias áreas das relações humanas, com conhecimento também técnico e com visão de negócios?

Apesar de ser um tema que quase todos evitam falar, é possível afirmar que varia muito. Pilotos consagrados, disputados no mercado, pagam uma porcentagem do que ganham a seus empresários. Willi Weber, era de conhecimento público na época, início dos anos 90 e começo de 2000, ficava com nada menos de 20% do que Michael Schumacher ganhava, valor bastante alto. Ele se defendia:

“Nosso grupo cuida até de pagar o salário dos pilotos do avião, despesas de viagem, hotel, carros alugados, assessoria de imprensa, temos todas as responsabilidades, o que no caso do staff de Michael posso garantir ser muita coisa.”

Briatore recebia até mais, segundo se comenta. Seu contratos eram sempre de oito anos. Nesse período ele dizia que garantia ao piloto estar de alguma forma em atividade, encontraria patrocinadores ou bancaria o investimento necessário, mas quando passasse a receber uma parte pouco maior desses 20% ficavam com ele.

Obviamente essas porcentagens não são divulgadas, mas é o que o meio comenta, portanto devem ser bem próximas da realidade. O mais comum, hoje, porém, é o empresário receber 10% dos vencimentos do piloto. E se ele teve responsabilidade na definição de um contrato de patrocínio outro tanto.

“Existem relações em que há um acordo entre o piloto e seu empresário, não existe uma porcentagem nos ganhos, em especial quando o piloto ainda está em uma categoria de formação, ele tem de investir para competir. Nesse caso se estabelece um valor fixo pelo trabalho realizado”, explica Resclosa.

Nesse instante, fim do campeonato da F1, as 20 vagas no grid preenchidas, a movimentação entre empresários e chefes de equipe se acalmaram um pouco. Não totalmente porque há 12 mudanças de pilotos na F1, em 2019, sendo que três são estreantes. Os empresários são da mesma forma bastante ativos nas conversas com representantes das escuderias a fim de que ambos estudem como criar a melhor condição para o piloto produzir o seu máximo.

A pré-temporada da F1 será de 18 a 21 de fevereiro e de 26 a 1º de março no Circuito da Catalunha, em Barcelona. A etapa de abertura do mundial está marcada para dia 17 de março em Melbourne, Austrália.

Na F2, as conversas de empresários de pilotos com os chefes de equipe e, principalmente, empresas potencialmente investidoras, patrocinadores, seguem a todo vapor. Muitos times ainda não fecharam seus pilotos para 2019. A pré-temporada será em fevereiro, em Paul Ricard, no Sul da França, e a etapa de abertura dia 30 de março no Circuito de Sakhir, em Barein, junto da segunda prova do calendário da F1.