Ferrari, a origem do mito

Ferrari, a origem do mito

Pergunte a um cidadão chinês de certa formação e com algum contato com o mundo ocidental o que primeiro lhe vem a mente quando o assunto é carro esportivo. Há chances elevadas de ele pronunciar, com seu sotaque, o nome Ferrari. Apresente um papel com desenhos de carros de corrida para um grupo de crianças cujas famílias de alguma forma se interessem por automóveis e, ao mesmo tempo, distribua lápis de cor. É provável que boa parte os pintem de vermelho, a cor da Ferrari.

Pesquisas indicam que a marca Ferrari está dentre as mais conhecidas no mundo. Não seria exagero afirmar que estamos diante de um mito. A brand Ferrari transcende nacionalidades, idade, sexo, cor, colocação social e até as incertezas do tempo. A Ferrari foi criada em 1947. Celebrou no ano passado 70 anos de rica existência.

Pesquisa de rua. Pergunta: o que você faria se, de repente, ganhasse muito dinheiro, capaz de garantir excelente nível de vida a gerações da sua família? Não são poucos que citariam adquirir uma residência, outro bem qualquer, fazer uma viagem há muito desejada e também um sonho: comprar uma Ferrari.

Há dentro de milhões de indivíduos a paixão por esses carros que, pelo que podem entender, representam o que há de mais avançado em termos da tecnologia que um dia chegará aos seus carros, os “carros normais”. Velocidade, aceleração, beleza, elegância. O máximo.

Há um desejo quase compulsório, em muita gente, de fazer parte do grupo dos que possuem uma Ferrari. Não só por performance, mas também pelo símbolo de status proporcionado por seus modelos tão especiais, exclusivos, alimentado pelo mito da marca. Sem falar no monstruoso prazer de acelerar aquela usina de força de mais de 400 cavalos de potência, capaz de produzir o som harmônico único dos motores Ferrari.

Estamos no autódromo de Monza, templo da velocidade. Faça uma enquete dentre os pilotos da F1, são apenas 20. Por qual escuderia mais gostariam de competir um dia. A maioria irá responder “Ferrari”. Na realidade ela lá foi feita no passado e repetida no presente. O resultado foi o mesmo. É possível que no futuro não seja diverso. As gerações de campeões do mundo passam, mas o mito Ferrari segue pulsante, atraindo-as.

Não hesite em acreditar que ainda hoje, apesar dos 30 anos da sua perda, o criador da marca, o ex-mecânico Enzo Anselmo Giuseppe Maria Ferrari, tem quase tudo a ver com esse quadro de excelência que acabamos de descrever.

Foi sua personalidade empreendedora, corajosa, criativa, determinada que o levou a obter sucesso naquilo que muitos, até com bem mais recursos, tentaram e não conseguiram. E foi a competência de Enzo Ferrari que o fez vencer corridas como piloto, dirigir a equipe Alfa Romeo, construir a sua própria escuderia e torná-la a maior de todos os tempos na F1, fomentando o mito.

Estatísticas impressionantes

Quer alguns números da divisão esportiva da Ferrari? Maior número de títulos mundiais de pilotos: Ferrari, 15. A seguir vêm McLaren, 12, e Williams, 7. Maior número de títulos de construtores: Ferrari, 16, seguida de Williams, 9, e McLaren, 8. Maior número de GPs disputados: Ferrari, 969. Em segundo está a McLaren, com 841, e a Williams, 752.

Vamos em frente. Maior número de vitórias: Ferrari, 235. Depois vêm McLaren, com 182, e Williams, 114. Maior número de pódios: Ferrari, 751, com McLaren em segundo, 485, e Williams, terceiro, 311. Maior número de pole positions: Ferrari, 219, com McLaren, a seguir, 155, e Williams, 128.

Ainda que parte importante dessas estatísticas tenha sido registrada nos últimos 30 anos, depois da passagem de Enzo Ferrari, no dia 14 de agosto de 1988, como mencionado a sua filosofia de busca pela perfeição, de jamais aceitar uma derrota, estar sempre em vigília, exigência militar aos subordinados segue intacta nos grupos que o sucederam na liderança da empresa, não apenas da divisão esportiva.


Enzo Ferrari

Uns com mais possibilidades de manter a tradição de conquistas da Ferrari outros com menos, mas de alguma forma capazes de manter a organização em evidência. Mesmo em períodos em que as vitórias nas pistas ficaram um pouco distantes. A contaminação gerada pelo mito não apenas manteve os fãs ativos, na Itália tifosi, como os fez crescer. Coisas que só a Ferrari é capaz de fazer.

Vá assistir a uma corrida de F1 na Austrália, representante da Oceania; no Barein, Oriente Médio; Brasil, América do Sul; Itália, Alemanha, Espanha, Mônaco, Hungria, Bélgica, dentre outras nações europeias; Canadá e Estados Unidos, América do Norte, e China, na Ásia. Não há dúvida: a cor predominante de camisetas, bonés e bandeiras é vermelha.

Montezemolo, fiel seguidor

O presidente que mais teve a cara da Ferrari, Luca Cordero di Montezemolo, de 1991 a 2014, diz a respeito de a marca que ele gerenciava:

“Nossos carros (não de F1) se caracterizam, desde que o senhor Enzo Ferrari decidiu construí-los, em 1947, por oferecerem o máximo de performance. Ficamos estigmatizados dessa forma. Depois, com as conquistas na F1, a partir dos anos 50, essa excelência em esportividade acabou associada às características dos carros por nós produzidos. Na realidade, vejo que um potencializa o outro. E como a Ferrari tem sido campeã desde os anos 50, em todas as décadas venceu títulos, criamos os fundamentos do nosso DNA. Viramos um adjetivo. Quando qualificam algo como “uma Ferrari” é porque estão querendo dizer “o máximo”. É assim que as pessoas nos viam, nos veem e provavelmente, espero, nos enxergarão no futuro.”


Luca di Montezemolo

O presidente da Ferrari do período de maior sucesso nas pistas e no mercado de automóveis esportivos comenta, ainda, que nada é ao acaso nesse projeto de manter o mito vivo:

“Em primeiro lugar, precisamos deixar nossos milhões e milhões de fãs felizes e, dessa forma, seguir conquistando novos. Como? Sendo protagonistas da F1 e nas competições onde há um carro da marca. A cada ano cresce o número de visitantes no nosso museu, em Maranello. Do outro lado, é preciso seguir inovando em todos os segmentos com os nossos veículos, nos elementos mecânicos, eletrônicos, hidráulicos, materiais, técnicas de construção, design, enfim a Ferrari se caracteriza pela vanguarda de suas soluções, é preciso manter essa filosofia. O senhor Ferrari costumava sempre me dizer: “A vitória mais bonita é aquela que ainda devemos conquistar”. Já na sua época de líder da empresa o senhor Ferrari havia compreendido a importância de mantermos uma linha de produção limitada, a fim de que os compradores saibam que estão adquirindo algo de qualidade excepcional e que bem poucos têm. A Ferrari poderia fabricar bem mais dos 8 mil carros anuais, há mercado, mas não o faz exatamente para manter esse carácter de exclusividade de nossos produtos, ajudando-nos a manter vivo o mito Ferrari.”

A Ferrari chegou onde chegou porque seu criador era um homem que sabia o que fazia. Foi piloto da Alfa Romeo, nos anos 20, tornou-se de diretor de competições e assumiu a equipe quando a Alfa Romeo se retirou das pistas em um primeiro momento, nos anos 30. Viu que poderia construir carros para competir e comercializá-los e, mesmo sem muitos recursos, partir para o projeto de ser fabricante, em 1947. Sempre tendo em mente os princípios que até hoje orientam a Ferrari.

Soberania nacional

O sucesso nas pistas, na aceitação de seus carros começaram a criar ao redor da marca algo meio que sagrado, a princípio apenas na Itália. Depois, com o fim ou o novo destino de empresas como Alfa Romeo, Lancia, Maserati, a Ferrari seguiu como única representante intocável dos italianos nas pistas. Virou uma questão de soberania nacional. Em um certo sentido, equivale à seleção brasileira de futebol.

Os espaços espontâneos na mídia são sempre muito generosos. Por quê? Por existir milhões que se interessam em saber notícias, não importa a natureza, da Ferrari.

Contribuiu muito para o mito ganhar força, além do sucesso nas pistas e no mercado de carros exclusivos, a postura de Enzo Ferrari. Poucos sabem: raramente deu entrevistas, apesar de suas paixões serem pilotar, administrar equipes de competição, construir carros e ser jornalista esportivo. Participou da fundação de um dos jornais esportivos mais famosos no mundo, em 1926, o Correire dello Sport, ainda hoje uma publicação de boa tiragem na Itália, embora Enzo Ferrari tivesse deixado a sociedade pouco tempo depois. Mas gostava de redigir. Escreveu sete livros.

Enzo Ferrari era um homem recluso. Ficou ainda mais depois de perder o filho Alfredo, o Dino, com apenas 24 anos, em 1956, por distrofia muscular. Dino era um engenheiro mecânico promissor e já trabalha na empresa, tendo projetado os famosos motores V-2 de 2,0 litros Dino, usados em carros da Ferrari, sendo que Enzo Ferrari criou até mesmo um modelo de sucesso chamado Dino.

Para se ter uma ideia da importância do filho, Enzo Ferrari deixou de competir como piloto quando ele nasceu, em 1932, e a partir da sua morte passou a usar um par de óculos escuros. Raramente foi visto depois sem eles. Parecia esconder sua dor eterna na escuridão proporcionada pelos óculos. Nessa época, também, deixou de dirigir. E teve o mesmo motorista por décadas.

Outras particularidades de Enzo Ferrari: nunca andou de avião ou de trem, jamais utilizou elevador. O máximo que se deslocou foi da sua amada região da Emília até a Lombardia, onde se encontra o Autódromo de Monza, no norte de Milão.

Condecorações e apelidos

Ganhou muitos títulos honorários e apelidos ao longo de seus 90 anos de vida. O que mais o orgulhava, como sempre lembrava, era o de Honoris Causa em Engenharia Mecânica, concedido pela universidade mais antiga do mundo, a de Bolonha, cidade próxima de onde nasceu Enzo Ferrari, Modena, no dia 20 de fevereiro de 1898.

Alguns apelidos recebidos: Il Commendatore, Il Mago, Il Grande Vecchio e o que mais pegou, Il Drake. Este lhe foi atribuído pelos ingleses, mas encampado pelos italianos. Era na realidade um maneira de denegri-lo e respeitá-lo ao mesmo tempo. Isso porque Enzo Ferrari era tido como um ditador por quem trabalhava com ele e os ingleses não gostavam de perder as corridas para os carros italianos da Ferrari. Drake referia-se ao corsário inglês mais famoso por suas habilidades, Francis Drake.

Por fim, algo que jamais poderia passar em branco, por ser a expressão que tanto identifica a Ferrari ao lado da cor vermelha: o símbolo da cavalinho empinado.

Vale a pena voltar no tempo. No dia 19 de junho de 1918, o ás da aviação italiana Francesco Baracca saiu para a quarta missão do dia, com seu avião reserva, SPAD S.VII, na área de Treviso, nordeste da Itália. O mundo vivia a I Guerra Mundial. Ele já colecionava 34 vitórias em duelos no céu. Nesse dia, porém, sem a escolta necessária, acabou abatido pelo aviador do império austro-húngaro Max Kauer. Baracca era um filho da aristocracia italiana e um herói nacional.

Alguns aviadores adotavam símbolos pessoais em suas aeronaves. A de Baracca no seu avião titular, SPAD S.XIII, era um cavalo empinado. A mãe do piloto, a condessa Paolina Biancoli, a guardou nas memórias do filho. Em 1923, Enzo Ferrari, então piloto de carros de corrida, venceu a prova disputada na área da cidade de Ravenna, próxima de onde vivia a rica família de Baracca.


Estreia da Ferrari em Mônaco, 1950

A condessa, presente no evento, se aproximou do vencedor, lhe deu um presente, era um objeto com a imagem do cavalo empinado, e disse:

“Ferrari, coloque esse símbolo nos seus carros, é o que meu filho usava no seu avião, ele lhe trará sorte.”

Foi apenas no começo dos ano 30, quando Enzo Ferrari passou a ser o diretor da equipe que era da Alfa Romeo, e a chamou Scuderia Ferrari, diante da saída da montadora das pistas, que o criador da Ferrari passou a adotar nos seus carros il cavallino rampante como símbolo da Ferrari.

A condessa estava mesmo certa: os rumos profissionais de Enzo Anselmo Giuseppe Maria Ferrari não poderiam ter sido melhores.