Sérgio: “Animado com o início dos trabalhos na minha nova equipe da F2”

Sérgio: “Animado com o início dos trabalhos na minha nova equipe da F2”

O mineiro Sérgio Sette Câmara, de 20 anos, já começou a preparação para a última etapa da sua formação antes de poder estrear na F1, tudo dando certo, em 2021. Na semana passada participou, com sua nova equipe, a francesa DAMS, dos três dias de testes programados pelos organizadores da F2 no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi, quatro dias apenas depois de disputada a 12ª e última etapa do campeonato, vencido pelo inglês George Russell, 20 anos, piloto da equipe francesa ART, com 287 pontos.

Antes de falar no teste, Sérgio fez um lembrete:

“Os três primeiros colocados na F2, este ano, foram contratados por equipes da F1, o que mostra quão competitiva foi a temporada, como a F2 voltou a ser uma boa escola para nossa formação e, pelo visto, novamente valorizada pelo pessoal da F1.”

Além de Russell, agora piloto da Williams, o segundo na classificação, outro inglês, Lando Norris, 19 anos, companheiro de Sérgio na inglesa Carlin, com 219 pontos, assinou com a McLaren. E o tailandês Alexander Albon, 22, da DAMS, terceiro, com 212, irá competir pela Toro Rosso. Este ano a F2 estreou um novo regulamento, com carros que a aproximaram mais da F1.

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Os 164 pontos de Sérgio, sexto colocado, não expressam a intensidade do seu trabalho. Teve vários problemas mecânicos e não participou das duas corridas de Mônaco. Na definição do grid, errou, bateu no guardrail e o contragolpe do volante quebrou seu punho direito. A prova de que os oito pódios obtidos por Sérgio sensibilizaram profissionais da F1 está na sua contratação pela McLaren. Será o piloto de testes e responsável pelo desenvolvimento do carro de F1 no simulador.

O importante para Sérgio, agora, é lutar pelo título da F2 em 2019, no mínimo terminar entre os três primeiros no campeonato, a fim de obter a superlicença e poder pensar em estrear na F1 em 2020. O piloto e seu grupo de trabalho entenderam que aceitar o convite da DAMS poderia elevar as chances de seus planos darem certo. Albon, seu piloto, disputou o título este ano, com Russell, até a etapa de Abu Dhabi. A DAMS já foi campeã na F2 com o inglês Jolyon Palmer, em 2014, o italiano Davide Valsecchi, 2012, e o francês Romain Grosjean, 2011.

Os três dias de testes no Circuito Yas Marina não representam um indicativo mais sério do que é possível esperar da temporada programada para começar dia 30 de março no Circuito de Sakhir, em Barein, junto da segunda etapa do mundial de F1, como serão as 11 etapas seguintes do ano, até de novo o evento chegar em Abu Dhabi, dia 1º de dezembro.

Os resultados desses testes costumam ser mascarados por vários fatores. O primeiro deles é que em nenhuma corrida da F2, em 2019, a pista terá tanta borracha nos foi o caso agora, realizados depois de três dias de competição da F1, F2 e GP3 e dois dias de testes da F1, na terça e quarta-feira. Esse acúmulo de borracha em uma pista onde quase não chove nunca eleva substancialmente o grau de aderência, o que faz com que carros menos equilibrados se tornem rápidos.

Além disso, nem todos os pilotos que treinaram com seus times têm já contrato assinado para 2019. Eles podem ter o carro em uma condição muito favorável para registrar bons tempos, como abusar do acerto de classificação e registrar bons tempos para convencer eventuais patrocinadores de que vale a pena investir no seu futuro.

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Esse não é o caso de alguns dos pilotos que muitos acreditam irão protagonizar o campeonato, como Sérgio e seu companheiro, o canadense Nicholas Latifi, ambos de contrato assinado com a DAMS – este irá para o quarto ano na escuderia -, o holandês Nick De Vries, com a ART, o suíço Louis Deletraz, na Carlin, e uma das estrelas do ano, o alemão Mick Schumacher, 19 anos, da Prema italiana. Mick é filho do piloto sete vezes campeão do mundo, Michael Schumacher.

Outro aspecto importante dos testes é que nem todos realizam os mesmos exercícios no mesmo instante. Por vezes um time simula a classificação de manhã e a corrida à tarde e vice versa, ou ainda faz estudos de acerto, a fim de verificar o que melhor combina com o estilo dos novos pilotos que trabalham com eles. Tudo isso significa que o autor do melhor tempo não é, necessariamente, o mais rápido. Cada um pode ter treinado sob diferentes condições.

No primeiro dia, 29, quinta-feira, na sessão da manhã, o mais rápido foi o italiano Luca Ghiotto, da Russian Time, com 1min50s562 (20 voltas). Sérgio registrou o sexto tempo, 1min51s176 (21). O companheiro de Sérgio, Latifi, o segundo, 1min50s910. Na da tarde, Deletraz fez o melhor tempo, 1min49s984 (27). Sérgio, o sétimo, 1min50s449 (27) e Latifi o quarto, 1min50s317 (30).

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No segundo dia, 30, pela manhã o campeão da GP3 este ano, o francês Anthoine Hubert, com o carro da MP Motorsport, ficou na frente, 1min51s116 (16). Sérgio trabalhou no acerto de corrida, por isso obteve somente o 18º tempo, 1min56s569 (26). Lafiti também, 1min55s812 (39), o 15º. À tarde, o americano Juan Manuel Correa, da Charouz, registrou o primeiro tempo, 1min49s958 (31). Sérgio, o quarto, 1min50s223 (26). Latifi, o 15º, com 1min50s673.

No terceiro dia, 1º de dezembro, Latifi liderou pela manhã, 1min51s312 (35), com Sérgio em quarto, 1min51s379 (28). À tarde, Deletraz ficou em primeiro, 1min49s638 (29), Latifi, terceiro, 1min49s976 (38), e Sérgio, quinto, 1min50s092 (40).

Mick Schumacher conquistou o conceituado Campeonato Europeu de F2, este ano, e estreia na F2, na mesma equipe do título, como mencionado, a italiana Prema. Tudo é novidade para ele na competição. Ainda que o resultado tenha pouca representatividade, a sua melhor colocação foi na sexta-feira, segundo tempo, 1min50s166 (25).

Só será possível conhecer o real potencial de cada um quando todos estiverem com o mesmo nível de gasolina no tanque, o mesmo tipo de pneu, se são novos ou usados, na mesma hora na pista e todos tentando tirar tudo de velocidade de seu Dallaras-Mecachrome, na sessão de classificação do GP de Barein, dia 29 de março.

Nem mesmo a próxima sessão de testes da F2, em fevereiro, em Paul Ricard, no Sul da França, dirá quem são, verdadeiramente, os principais candidatos ao título. Na teoria, seriam o experiente holandês De Vries, na ultracompetente ART, só recordando, campeã com Russell este ano, Sérgio, na DAMS, e Deletraz, na Carlin, dentre outros.

Sérgio fala sobre seu primeiro teste com a DAMS

Sérgio Sette Câmara, em depoimento a Livio Oricchio

Olá amigos.

Pois é, depois de apenas deixar amigos na Carlin, como disse aqui no nosso último encontro, já comecei a trabalhar com o pessoal da DAMS. A maioria na Carlin é inglesa, ainda que meu engenheiro, Daniele Rossi, fosse italiano. Na DAMS quase todos são franceses. São povos de cultura distintas, ambos no entanto capazes no que fazem. Meu engenheiro, agora, na DAMS, é Damian Augier, que trabalhou com Albon este ano.

Deu para ver que Damian é bem tranquilo, o que é ótimo, pois sou meio agitado no fim de semana de competição, minha pilotagem é um pouco agressiva. É um bom equilíbrio. Pilotos nórdicos, que menos expõem suas emoções, devem preferir um engenheiro mais agitado.

Começamos os treinos e vi que o acerto básico da DAMS era diferente do que eu tinha na Carlin. Já disse aqui e vou repetir: os carros da F2 usam o mesmo chassi, motor e pneus. Esse primeiro encontro foi mais para ter contato com a metodologia de trabalho dos franceses, mostrar como gosto do carro, enfim nos apresentarmos.

Posso dizer que saí bastante satisfeito do Circuito Yas Marina. Eu vi um grupo bem aberto, disposto a ouvir o que tinha a dizer, avaliar com atenção minhas sugestões. Estou bem animado.

Se você olhar os tempos poderá pensar… puxa, o Sérgio não ficou entre os primeiros. Amigo, eu não me preocupei, em nenhum instante, em querer estabelecer o melhor tempo. Não que eu não tenha simulado uma classificação, com pneus novos. Claro que sim, mas como falei a preocupação maior foi usar o tempo para eu e meu companheiro, o Nicholas, sairmos dos boxes com acertos distintos, para realizar as mais diversas experiências. Aliás, me dei muito bem com o Nicholas, como sempre na minha carreira.

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O time tinha um extenso programa de avaliações para os três dias e nos dedicamos integralmente a cumpri-lo, sem nos deixar levar pelo que os adversários faziam. A DAMS é muito bem organizada.

O que me chamou a atenção também é como eles têm números para tudo, como usam gráficos para obter um raio X do comportamento do carro. Na Carlin, por exemplo, há tudo isso, óbvio, mas em grau um pouco menor, há um pouco mais de espaço para o feeling.

Permaneço um tempo ainda aqui na Europa, perto de Barcelona. Vou seguir treinando fisicamente, andando de kart, excelente para os reflexos, além de eu adorar, e depois viajar para Belo Horizonte, onde seguirei com o mesmo programa, mas no calorzão do verão brasileiro. Aqui na Europa está fazendo frio. Ficar ao lado da família e dos amigos é sempre importante. Volto para meu trabalho com as baterias recarregadas.

Até o nosso próximo encontro, amigos. Se não nos falarmos até o fim do mês, em primeiro lugar obrigado pelo carinho que recebi no ano todo, essencial. E depois, claro, desejar a todos um fim de ano dos mais felizes e um ano novo pleno de realizações, de toda natureza. Receba meu forte abraço!