Sérgio Sette Câmara avalia a reta final da F2 após corrida na Itália

Sérgio Sette Câmara avalia a reta final da F2 após corrida na Itália

A temporada de F2 entra na reta final. Depois das duas corridas na pista mais veloz do calendário, Monza, no último fim de semana, a competição vai para as duas etapas de encerramento do campeonato, 11ª e 12ª, dias 29 e 30 em Sochi, na Rússia, e após somente dias 24 e 25 de novembro, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, sempre junto da F1.

No GP da Itália, sábado, o líder da competição, o inglês George Russell, 20 anos, da equipe ART, largou na pole position e recebeu a bandeirada em quarto. O vice-líder da F2, o também inglês Lando Norris, 18 anos, da Carlin, saiu da sexta posição no grid e terminou em sexto.

Com uma estratégia ousada, retardando ao máximo o pit stop, o time Russian Time surpreendeu a todos, ao levar seus pilotos a uma dobradinha, primeiro e segundo, no fim das 30 voltas no traçado de 5.793 metros.

Para se ter uma ideia da eficiência da estratégia, o vencedor, o japonês Tadasuke Makino, largou na 14ª colocação. E o segundo colocado, seu companheiro na Russian Time, o russo Artem Markelov, em 4º. O pódio foi completado pelo tailandês Alexander Albon, da DAMS, terceiro, posição original no grid também.

O brasileiro Sérgio Sette Câmara, patrocinado pela Youse, companheiro de Norris na Carliln, era o segundo no grid, sábado, mas a maré de eventos desfavoráveis de novo o atingiu, fazendo-o largar dos boxes. Os mecânicos deixaram o grid, antes da largada, depois do tempo máximo permitindo, levando o diretor de prova a puni-lo com a obrigação de começar a competição dos boxes. Mesmo assim, Sérgio correu como poucos fariam e chegou em sétimo.

Na corrida do domingo, com o critério do grid invertido entre os oito primeiros, o suíço Ralph Boschung, da MP Motorsport, largou em primeiro, por ter sido oitavo no sábado. Sérgio, em segundo, pela sétima colocação na primeira corrida, e seu companheiro, Norris, terceiro, por ter sido sexto na primeira prova.

Ao fim das 21 voltas (tem nove a menos que no sábado), Russell venceu, mesmo tendo começado no quinto lugar do grid. Markelov chegou de novo no pódio, apesar da sétima colocação no grid, e Sérgio completou o pódio, em terceiro.

O novo sistema de largada, introduzido a partir do GP da Hungria, último antes das férias de agosto, tornou as largadas uma manobra mais difícil para os pilotos, mas mais segura, por evitar de os carros ficarem parados no grid, uma temeridade.

Com os resultados do fim de semana em Monza, Russell consolidou ainda mais o primeiro lugar no campeonato, com o quarto lugar no sábado e a vitória, domingo. Soma 219 pontos. Norris foi sexto e quinto, portanto perdeu terreno para Russell. Tem 197 pontos. Em terceiro, Albon obteve 15 pontos no sábado, apenas, e ficou com 176.

A terceira colocação final no ano é a meta de Sérgio, por os três primeiros lugares na F2 garantirem a superlicença, necessária para disputar F1. Sérgio conquistou no total, em Monza, 18 pontos, do sétimo no sáb/ado e terceiro no domingo. Ocupa, agora, o sexto lugar na classificação, com 142 pontos. Na sua frente, em quinto, está o holandês Nyck De Vries, da Prema, com 155, Markelov, 160, e maior adversário de Sérgio pelo terceiro lugar, Albon, com 176.

A reportagem da Youse conversou com Sérgio para ouvi-lo sobre o seu fim de semana de competição em Monza.

“De novo não pude explorar todo o potencial, meu e do carro”

Sérgio Sette Câmara, em depoimento a Livio Oricchio

Olá amigos.

Acredito que você, como eu, deve se impressionar com o número de acontecimentos de toda natureza que, com alguma regularidade, tem interferido na possibilidade de eu conquistar um melhor resultado. Em Monza, o que ocorreu foi incrível. Bem, vamos começar pelo começo, combinado?

No primeiro treino livre, na sexta-feira, a pista esteve molhada a maior parte do tempo. Pudemos aproveitar somente metade da sessão, o que é quase nada. Vi logo que tínhamos um ótimo acerto de base. Isso somado ao meu prazer e adaptação ao circuito, estabeleci o melhor tempo.

Fui para a definição do grid bem confiante, embora sabendo que muitos não mostraram sua força total no treino livre. Completei uma volta muito boa em Monza. É uma pista onde quem freia tarde, e obviamente mantém o controle do carro, é mais rápido que os concorrentes. Essa é uma das áreas que considero ser um dos pontos onde atingi já bom estágio de evolução, apesar de ser sempre possível melhorar.

Na minha segunda tentativa de estabelecer a pole, registrei 1min31s600. O Russell conseguiu da mesma forma um belíssima volta e fez 1min21s546. Viu a diferença entre nós? Impressionantes 54 milésimos de segundo. Na velocidade média que completamos a volta, 220 km/h, essa diferença de tempo entre eu e o Russell representa muito pouco. Se percorrêssemos juntos os 5.793 metros de Monza, ele cruzaria a linha de chegada apenas alguns centímetros na minha frente.

“Fui para a primeira corrida consciente de que a vitória era uma realidade. Mas eis que o imponderável de novo se aproximou.”

Fui para a primeira corrida consciente de que a vitória era uma realidade. Mas eis que o imponderável de novo se aproximou. Estava parado no grid e um minuto antes da largada ligamos o motor. Ele começou a funcionar, mas quando acelerava os giros não passavam de algo como 3 mil rpm, um terço do permitido. Avisei a equipe do problema pelo rádio, mas não com essa calma que você pode pensar. Estava bem tenso em razão de estarmos a instantes antes da largada.

Uma possível saída seria desligar o motor e começar todos os procedimentos novamente. Nosso motor, capaz de nos disponibilizar pouco mais de 600 cavalos, comanda tudo no carro, claro. Se você o desliga, tudo para. E depois de ligado novamente é preciso um tempo para as funções que dependem do motor serem ativadas.

Imagine como eu me sentia, dentro do cockpit, com o reset do sistema, sem rádio também, e o cronômetro para o semáforo autorizar a volta de apresentação correndo. Estávamos a segundos de iniciar a volta. Nessa confusão toda, meus mecânicos deixaram o grid três segundos depois do máximo autorizado.

Dura descoberta

O interessante é que quando religamos o carro e coloquei primeira marcha, os giros subiam normalmente, não havia aquela limitação em 3 mil rpm que falei. Isso fez com que eu saísse a tempo para a volta de apresentação, junto dos outros, mas meu engenheiro, Daniele Rossi, me avisou pelo rádio que a direção de prova nos tinha punido com a largada dos boxes. Fiquei decepcionado dentro do carro, por saber que dispunha de equipamento para lutar, com chances, pela vitória.

O mais incrível foi descobrir o que gerou o problema. O sistema eletrônico de gerenciamento do motor impede de os giros ultrapassarem os 3 mil rpm, por segurança do motor, quando estamos em ponto morto. A cada etapa os organizadores introduzem novidades nos carros, como na embreagem, de comportamento completamente distinto do que tínhamos até a corrida de Budapeste.

“Parado no grid, [eu] acelerava, acelerava e os giros não subiam.”

E nem sempre sou avisado pela equipe das novidades, como essa, de o carro, em ponto morto, não passar de 3 mil rpm. Foi por isso que eu, parado no grid, acelerava, acelerava e os giros não subiam. Quando fiz o reset do sistema e coloquei a primeira marcha, o bloqueador de giros foi desativado. Mas aí o estrago já estava feito. Tinha de largar dos boxes. Ouvir aquilo foi duro, amigos, tenha certeza.

Reclamei com o segundo engenheiro, ele deveria me ter avisado dessa reação agora do motor. Valeu como lição. Se antes eu já procurava me inteirar das mudanças com interesse, agora farei um pente fino em tudo, a fim de evitar ser surpreendido como foi o caso em Monza.

Como um foguete

Só depois de todos passarem pela saída dos boxes o sinal verde acendeu para mim. Estava na última colocação. Mas com um carro que era um foguete. Comecei a passar um por um. Nas quatro voltas finais, estava tão rápido que estabeleci por quatro vezes a melhor volta da corrida. Recebi outro baque, vivi outra frustração quando me informaram que os 2 pontos pela volta mais rápida não me seriam dados. O regulamento explica que só quem larga do grid pode receber pontos pela melhor volta, não dos boxes. É dose, viu?

Para você ter uma ideia do meu ritmo, recebi a bandeirada em sétimo, a 18 segundos, apenas, do vencedor, Makino, e a somente 9 segundos depois do meu companheiro, o Lando, que largou em quinto. Dá para entender melhor quando falei que poderia ter vencido a corrida se não tivesse de largar dos boxes?

No domingo, mesma coisa, como sairia da primeira fila, segundo, por ter sido sétimo na prova do sábado, tinha certeza de que ganhar era ainda mais possível. Na pole estava o Ralf Boschung, com o carro da minha equipe em 2017, a MP. Sabia que seria muito difícil para o Ralf me manter atrás dele.

Aí entrou em cena outro drama. O que era um ponto de força da minha equipe, tornou-se uma área onde precisamos trabalhar mais, o sistema de embreagem. Temos, agora, apenas 50% do curso da alavanca de embreagem atrás do volante para com os dedos a modularmos. Começou na Hungria. Ficou muito fácil para todos nós liberarmos a alavanca e as rodas ficarem patinando, perdendo tempo. Foi o que aconteceu comigo.

No fim da primeira volta, em vez de segundo, como estava no grid, ocupava o sexto lugar. Perdi quatro posições. A exemplo do sábado, meu carro voava na pista. Avancei até o terceiro lugar. Tentei ultrapassar o Markelov, na penúltima volta, a fim de ser segundo e não terceiro. Mas freei tão dentro da curva 1 que segui em frente. A partir daí, tratei de garantir o meu pódio, com o terceiro lugar.

Em termos de campeonato, não foi um grande fim de semana. O Albon, quem desejo ultrapassar para ser terceiro e ganhar a superlicença, somou 15 pontos, mas eu só 18, pouco a mais que ele, 3 pontos. No total cheguei a 142 enquanto o Albon tem 176. São 34 pontos de diferença e temos duas etapas para o fim do campeonato. Vai ser difícil, mas não é sonhar alto demais terminar a temporada em terceiro e começar a pensar, com mais seriedade, na F1.

Investir na preparação

Temos agora três semanas até o GP da Rússia. O que farei nesse tempo? Várias sessões no simulador, na sede da Carlin, na Inglaterra, e em um estúdio na Holanda. Agendei treinos no kartódromo perto de casa, em Barcelona, essencial para manter os níveis de reflexos elevados, dentre outros benefícios, e obviamente seguir a risca o programa de treinamento físico.

Nosso próximo encontro, agora, será quando eu estiver já em Sochi, ao pé das montanhas do Cáucaso, no Mar Negro, a riviera dos russos, por ser a porção de latitude mais baixa do país e onde as temperaturas são amenas, mesmo no inverno. Incrivelmente não é diferente da região ao redor de Barcelona, como vocês bem sabem local de minha residência.

Desejo a todos uma boa entrada na primavera aí no Brasil. E sei que vocês estão me enviando os votos de boa entrada no outono aqui na Europa, talvez a estação mais bonita no Velho Mundo. Abraços!