Sérgio Sette Câmara fala sobre os altos e baixos da prova de F2 na Hungria

Foi um fim de semana de muitos acontecimentos para o brasileiro Sérgio Sette Câmara na pista de Hungaroring, na Hungria. O piloto conquistou sua primeira pole position no ano e alcançou o terceiro lugar no pódio na prova de domingo. Ao mesmo tempo, recebeu uma punição por tocar um adversário na primeira corrida e teve um rendimento aquém do seu preparo. No texto abaixo, você confere o depoimento que Sette Câmara deu ao jornalista Livio Oricchio, detalhando e analisando seu desempenho na etapa.
Sérgio Sette Câmara fala sobre os altos e baixos da prova de F2 na Hungria

Doído por não vencer na Hungria, mas de cabeça erguida para a Bélgica

Sérgio Sette Câmara, em depoimento a Livio Oricchio

Olá amigos.

Se vocês acham que é só no Brasil que faz calor vocês estão enganados. No domingo, a temperatura em Budapeste era de 34 graus e a do asfalto, 59. É quente, pessoal. Obviamente o que primeiro te vem à mente é como manter os pneus conservados nessas condições.

Na sessão que definiu o grid, sexta-feira, eu e meu engenheiro Daniele Rossi conseguimos um bom acerto para o carro. Dei uma boa volta, mas não estava seguro de ser o mais rápido. Isso porque na curva 4, a única razoavelmente rápida, junto da 11, eu sai em cima da zebra um pouco mais, mas antes de ela terminar estava de volta ao asfalto. No fim da zebra há um degrau. Se você cai nele perde tempo. Não foi o meu caso.

No fim meu tempo, 1min27s400, me permitiu ser 30 milésimos mais rápido que o segundo no grid (o inglês Jack Aitken, da ART). O meu companheiro, o Lando, não conseguiu uma grande volta e ficou em sexto. O líder do campeonato, o Russell, ficou em quarto.

Larguei bem, mantive-me em primeiro até a décima volta. Poderia ser um pouco mais rápido, mas os pneus acabariam logo naquela temperatura. Acho que o Lando tinha o carro um pouco mais acertado para a corrida e conseguiu encostar em mim na décima volta. Lutamos pela liderança. Ele me passou eu o ultrapassei. Mas por estar mais rápido, manteve-se na minha frente.

Sabia que nas voltas finais, naquele ritmo, mesmo depois do pit stop, com pneus novos, eles estariam desgastados. Lando seguiu acelerando. Quando os pneus dele começaram a dar sinais de degradação, me aproximei. Os meus estavam mais inteiros. Na 33ª volta, penúltima, encostei no Lando.

Cheguei mais rápido no fim da reta e tentei a ultrapassagem. Freei tarde, algo como 5 metros depois do usual, apenas, mas o suficiente para não iniciar a curva no ponto certo, segui alguns metros em frente. Como o Fuoco estava bem próximo de mim, ele aproveitou o meu erro, colocou de lado e me ultrapassou.

Naqueles poucos metros entre as curvas 1 e 2, eu não apenas não assumi o primeiro lugar, se ultrapassasse o Lando, como perdi o segundo para o Fuoco. Percorremos aquela volta assim, era a última, os três bem próximos. Na curva 13, penúltima, havia um espaço por dentro e me coloquei lá para tentar voltar ao segundo lugar. Só que o Fuoco fechou a porta eu toquei nele e ele rodou. Recebi a bandeirada em terceiro, mas segundos depois os comissários me puniram com 10 segundos e caí para sétimo.

Deu tudo errado no final. Como me senti? Obviamente mal, larguei em primeiro e terminei em sétimo. Somei 6 pontos do sétimo lugar em vez de 25 do vencedor. Mas depois de um tempo você tem de se recompor, caso contrário transfere esse estado de espírito para a sequência do campeonato. Não pode. Faz parte do nosso treinamento assimilar os erros, estudá-los, com calma, para não mais repeti-los. Deixar se abater é um convite a cometê-los de novo.

Fomos para o domingo e eu tinha nova chance de um bom resultado por causa do critério do grid invertido na segunda corrida. Larguei em segundo. Embora na F2 seja diferente da F1 na pista de Budapeste, ainda assim é difícil ultrapassar. Em segundo, podia receber a bandeirada em uma boa posição. Só que o desafio maior para os 20 pilotos no grid era completar as 28 voltas sem trocar os pneus, com o asfalto a 59 graus.

Não larguei bem. As largadas têm sido um dos meus pontos fortes este ano. Não foi o caso domingo. As rodas patinaram demais. Caí para o quarto lugar. Mas houve um safety car virtual e consegui voltar para terceiro ao ultrapassar o Artem (russo Artem Markelov, da Russian Time). Nessa hora também, o Fuoco tocou no meu pneu traseiro direito, por sorte sem consequência.

O Ghiotto liderava com o Albon em segundo e eu em terceiro. No final, o Lando chegou em mim. Mas consegui manter-me na sua frente. O Albon ultrapassou o Ghiotto na 24ª volta, a quatro da bandeirada e cruzou a linha de chegada em primeiro, com o Ghiotto em segundo e eu, terceiro. O Lando ficou em quarto.

Agora o saldo do fim de semana para mim:

Vou usar como exemplo o Albon, primeiro no domingo, enquanto se classificou em 13º para a corrida do sábado. Ele fez mais pontos que eu que larguei na pole position no sábado. Isso mostra que não tive um bom fim de semana (nas duas corridas, como Sérgio foi pole, sétimo e terceiro, somou 20 pontos. 10+10. Albon, quinto e primeiro, 25 pontos). Eu já pontuou mais em fim de semana que larguei mais atrás. No circuito da Hungria é difícil ultrapassar e eu larguei em primeiro e segundo.

“Pequenos detalhes definem tudo quando se luta por milésimos de segundo.”

Esperava conquistar mais dos 20 pontos. No sábado recebi a penalização. Pequenos detalhes definem tudo quando se luta por milésimos de segundo. Eu freei 5 metros mais tarde para tentar ultrapassar o Norris na curva 1 e perdi a freada, custou o segundo lugar, depois acabei batendo no Fuoco, por minha culpa. No domingo, a largada não foi perfeita. São três pequenos erros que me custaram muito. Por isso não estou tão feliz.

Ensinamento? Aprendemos muito a cada guidada. Falar uma coisa em especial, diria ser mais calmo na ultrapassagem. Mas tem de levar em conta a mudança do cenário, não é mais como no começo do ano, que eu tinha de ir com calma, fazer 20 pontos a cada fim de semana. Mudou. Eu tive este ano muitos problemas no carro, cometi alguns erros, perdi muitos pontos, cai na classificação, tenho de ser mais agressivo, não posso fazer os mesmos pontos dos que estão perto de mim no campeonato, preciso fazer mais pontos, recuperar pontos.

Vou tentar de novo em Spa, mas calculando um pouco melhor os riscos. Tenho de fazer o mesmo, na Hungria não funcionou, uma hora vai encaixar.

Essa parada no campeonato é boa, permite maiores reflexões, em geral minhas melhores corridas acontecem depois que volto de casa, é bom, sim. Vou estudar, ver como estou no campeonato, definir a estratégia para as etapas finais. A meta segue sendo terminar em terceiro, apesar de o Albon ter aberto agora boa vantagem.

É férias no calendário da F2 mas não para nós pilotos, amigos. Vamos trabalhar física e mentalmente, além de simulador, ainda mais nesses dias sem atividade de pista. Abraços.