Sérgio: ”Vamos agora, em 2019, para a última etapa antes da F1”

Sérgio: ”Vamos agora, em 2019, para a última etapa antes da F1”

F2, agora, fora os testes extracampeonato, apenas no dia 29 de março, nos primeiros treinos livres da etapa de abertura da temporada de 2019, no Circuito de Sakhir, no Barein. O campeonato deste ano acabou domingo, no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi, 12ª etapa do calendário, 24ª corrida de 2018, já que na F2 há sempre uma no sábado e outra no domingo.

O inglês George Russell, da equipe francesa ART, conquistou o título, ao vencer a corrida do sábado, depois de largar na pole position, e terminar a do domingo em quarto, pois o grid entre os oito primeiros no sábado é invertido na segunda prova do fim de semana. O seu adversário era o inglês de nacionalidade também tailandesa Alexander Albon, da francesa DAMS.

Albon deixou o carro morrer na primeira corrida, por conta da pouca eficiência do sistema de embreagem do carro da F2, comum em toda a temporada, e terminou apenas em 14º. Largando dessa posição no domingo, recebeu a bandeirada em 8º. Essas más colocações fizeram com que o inglês Lando Norris, da inglesa Carlin, terminasse o campeonato como vice-campeão, pois foi quinto no sábado e segundo no domingo.

VEJA+: É proibido ser espontâneo na Fórmula 1

No balanço geral do ano, Russell somou 287 pontos, Norris, 219, e Albon, 212. A boa notícia é que os três assinaram contratos com equipes de F1 e vão disputar o mundial de 2019. Russell, 20 anos, correrá pela Williams. Norris, 19, McLaren. Albon, 22, Toro Rosso.

O Brasil teve este ano na F2 o mineiro Sérgio Sette Câmara, 20 anos, companheiro de Norris na Carlin. A exemplo de Albon, disputou, em Abu Dhabi, seu pior GP desde o início do campeonato. Uma problema de comunicação com o seu engenheiro, Daniele Rossi, na sessão de classificação, o fez largar apenas de décimo, no sábado. O piloto pediu uma mudança no acerto do carro e os mecânicos fizeram outra. Na F2 é fundamental largar entre os primeiros para ter chande de pódio.

Para complicar a situação, a exemplo de Albon, Sérgio deixou o carro morrer na largada do sábado. Perdeu uma volta e só recebeu a bandeirada em 16º, posição que começou a corrida no domingo. E novamente a hipersensibilidade do sistema de embreagem do carro da F2, de tantas dificuldades para todos, o fez deixar o motor morrer. Largou depois e terminou em décimo, ou seja, não marcou pontos no Circuito Yas Marina.

Assim, Sérgio terminou o campeonato na sexta colocação, com 164 pontos. Norris, que já enfrentou problemas semelhantes este ano, teve um fim de semana livre e pôde chegar a 219, vice-campeão. Mas como Sérgio disse no depoimento a seguir, não fossem as várias quebras do equipamento, este ano, estaria lutando também pelo vice. No texto abaixo o piloto de Belo Horizonte fala do GP de Abu Dhabi, faz um balanço da temporada e projeta o ano de 2019, em uma nova equipe. Vai correr pela DAMS, de melhor retrospecto que a Carlin. Além do trabalho na McLaren.

Cada vez mais perto de um sonho

Sérgio Sette Câmara em depoimento a Livio Oricchio

Olá amigos!

Lembra daquele entusiasmo todo que, creio, passei aqui para vocês na nossa última conversa, antes de eu viajar de Barcelona, onde resido, para Abu Dhabi, a fim de disputar a última etapa da F2? Estava bastante confiante em avançar na classificação do campeonato. Trabalhei realmente duro nos dois meses de pausa do calendário.

Pois ao chegar no Circuito Yas Marina, vi que os organizadores da F2 estavam, de novo, como sempre aliás, mexendo aqui e ali no sistema de embreagem de todos os carros. São os mesmos para todas as equipes. Esse era um dos pontos de vantagem que o meu time tinha, a eficiência da embreagem, a forma como os engenheiros conseguiram acertá-la. Aprendi bem a lição e dei largadas espetaculares, este ano.

VEJA+: O que é a superlicença, tão desejada pelos pilotos, em especial na F2?

Mas aqui em Abu Dhabi, onde ainda estou para os três dias de testes da F2, a mexida que os técnicos da categoria fizeram deixou a minha embreagem com um curso útil de sei lá, uns dois milímetros. Nos acionamos a pequena alavanca de embreagem, localizada atrás do volante, com os dedos. Achar aquele ponto em que o carro dá o pulo para a frente, sem as rodas patinarem demais ou perder completamente aceleração, tornou-se um exercício como nunca vi. Não era assim, funcionava, no nosso carro, até que razoavelmente bem.

Pois na largada da primeira corrida foi desastroso. Meu carro morreu, os mecânicos levaram para os boxes e quando voltei à pista havia perdido uma volta. Com o Albon, que disputava o título, imagine, aconteceu o mesmo. Por causa desse sistema de embreagem que, acreditem, amigos, é perigoso, tivemos um acidente freio na largada. E os anjos estiveram de plantão durante o ano por não ter acontecido nada de mais sério.

Na realidade minhas dificuldades no último fim de semana começaram na sexta-feira, na sessão de classificação. Eu usei o primeiro jogo de pneus e fiquei com o sétimo tempo. Dava para melhorar o carro. Pedi para o meu engenheiro dar um clic a menos de regulagem no aerofólio dianteiro e dois a mais na barra traseira. Mas eles se confundiram e quando saí com o segundo jogo de pneus vi que o carro tinha piorado.

Mesmo assim, daria para fazer um tempo melhor que o décimo se não tivesse enfrentado tráfego no último setor da pista, cheio de curvas lentas. Largar em décimo na F2 em um circuito onde as ultrapassagens são difíceis seria já ruim. E sem largar na hora, claro, pior ainda.

No domingo, era o 16º no grid. E aconteceu a mesma coisa, o motor morreu. Em grande parte porque o sistema é péssimo e em menor parte minha responsabilidade. Recebi a bandeirada, para minha frustração, em décimo lugar. Achava ser bem possível avançar na classificação final do campeonato de sexto para, digamos, quarto, por a minha diferença para eles ser relativamente pequena. Sem pontos mantive o sexto lugar. Bem distante do meu potencial, do carro e da Carlin, como o Lando provou, ao ser vice-campeão.

Aprendi muito nesta temporada, como nunca até agora na carreira. Até o fim do ano passado, a vitória no incrível circuito de Spa, na Bélgica, fez as pessoas desconfiarem que eu poderia, de fato, ser um bom piloto. Este ano, os oito pódios, a pole em uma pista como a da Hungria, ter sido mais eficiente, na média, que o Lando, na segunda metade do campeonato, fizeram com que meu conceito crescesse muito.

As pessoas passaram a me olhar diferente, no paddock, todas as equipes fizeram contato conosco, oferecendo vaga. Eu não era tratado assim até a temporada passada. Isso ajudou a elevar ainda mais a minha autoconfiança.

LEIA+: Por que sem patrocinador não há como o piloto fazer carreira no automobilismo?

Devo também ao pessoal da Carlin, ao meu engenheiro, a todos na equipe. Só tenho agradecimentos a eles. Os vários problemas técnicos que tive e tantos pontos perdidos foram obra do não cuidado como deveria ser da organização da F2 com o carro e, claro, do acaso.

O fato de o Lando ser inglês como quase todos na Carlin e vir do título na F3 europeia com eles, em 2017, não interveio em nada no tratamento que me deram, tivemos, sempre, a mesma condição, o mesmo carro. Como falei, zero a reclamar, tenho apenas elogios a Carlin.

O saldo de 2018 para mim, apesar de terminar somente em sexto, enquanto imaginava lutar pelo título, é bem positivo pelos motivos expostos há pouco. Quem vive o nosso mundo, o do automobilismo, sabe que a minha responsabilidade no resultado final existe, sem dúvida, mas é menor do que os números sugerem.

Bola para a frente

A direção da equipe francesa DAMS vinha mantendo contato comigo desde o fim de 2017. Aí a Carlin me ofereceu uma condição muito boa e fui para lá. Como falei, realizamos um bom trabalho juntos. Mas achei que seria hora de mudar. A DAMS já fez três campeões na GP2, antiga F2, e este ano mesmo o Albon, seu piloto, lutou pelo título até a etapa final, aqui em Abu Dhabi.

Assinei com o grupo liderado por Francois Sicard e já estou trabalhando. Eu me reuni com eles, tirei o molde do banco, comecei a entender sua metodologia de funcionamento, passei a ter os primeiros entrosamentos com meus dois engenheiros, enfim, iniciamos um nova trajetória.

Ah, antes de vir aqui para Abu Dhabi, visitei a sede da DAMS, em Le Mans, e fiquei impressionado. Eles competem em várias categorias, foram campeões nas três primeiras edições da Fórmula E, disputada com carros elétricos, por exemplo. É tudo muito bem organizado, não existe isso em categorias de formação de pilotos.

O meu companheiro será o canadense Nicholas Latifi, de 23 anos. Ele vai para a quarta temporada na F2, sempre pela DAMS. Já conversamos bastante, deveremos nos dar bem, como foi com o Lando, a quem desejo boa sorte na F1. Em 2020 voltaremos a ser adversários.

Nesta quinta e sexta-feira e no sábado participo dos treinos aqui de onde escrevo, o belo Circuito Yas Marina, onde faz muito calor.

A outra boa notícia para mim é que, como já contei, assinei contrato com a McLaren para ser o piloto de desenvolvimento, no simulador, hoje função de grande importância na F1, e de testes. Vou fazer as duas coisas, disputar a F2 com chances, tenho certeza, de poder lutar pelas primeiras colocações, e estar em quase todas as reuniões da McLaren no fim de semana de GP.

Essa convivência interna na McLaren me vai introduzir no complexo universo da F1, muito diferente do da F2 que estou acostumado. A ideia é aprender muito. Se for bem na F2, deverá acontecer o mesmo que ocorreu com o Lando. Ele fez este ano o que vou fazer em 2019. Como o Lando foi bem na F2, a McLaren deu até a chance de ele participar dos primeiros treinos livres em Spa e agora, aqui em Abu Dhabi.

A McLaren terá dois novos pilotos para o ano que vem. Saíram o Fernando Alonso e o Stoffel Vandorne e entraram o Lando e o Carlos Sainz Júnior, de 24 anos, quatro de experiência na F1. Vou estar 100% focado no meu trabalho na F2, tenho de fazer e bem feita a lição de casa, ser protagonista do campeonato, para pensar em F1 em 2020.

Gostaria de agradecer o grande carinho que recebi de vocês neste nosso espaço, onde me expresso de maneira informal, sem maiores policiamentos. E tenho de deixar pública minha imensa gratidão a Youse, pois sem ela nada disso teria sido possível. E vamos juntos, agora, para um nova etapa dessa minha trajetória, quem sabe, torçam por isso, a etapa final antes do maior desafio, fazer sucesso na F1. Grande abraço!

VEJA+: Sérgio Sette Câmara: Piloto das próprias escolhas