Precisamos falar sobre HIV e Aids e não é do jeito que você imagina

Precisamos falar sobre HIV e Aids e não é do jeito que você imagina

Logo no início desta entrevista, quando eu pergunto quais são os pré-conceitos que ainda persistem sobre ser soropositivo, Kako Arancibia, de 33 anos e vive com HIV, pausa a conversa e confessa suas preocupações com textos que dizem sempre a mesma coisa.

“Quando eu vejo esse tipo de pergunta, eu não acho isso muito efetivo. Tenho a sensação de responder uma coisa meio óbvia. Como você se sentiria se recebesse hoje o diagnóstico positivo, quais seriam as suas angústias, os seus medos?

Eu nunca tinha pensado nisso, mas se eu fizesse uma coleta de sangue hoje e recebesse esse diagnóstico, correria direto para a internet e não para um médico. É assim que eu percebo que a gente realmente precisa rever nosso jeito de pensar sobre o assunto. “Acho engraçado quando falam sobre isso: para quem é negativo, dizem que você precisa fazer de tudo para não se infectar. Mas quando você é positivo, dizem que a sua vida vai continuar a mesma. São dois lados que convivem“, diz Kako.

Kako Arancibia é ator, performer e designer |© Foto de Fred Vianna

HIV não é Aids

HIV é a sigla em inglês para Vírus da Imunodeficiência Humana. O portal do Ministério da Saúde explica: É um vírus que ataca o sistema imunológico, que é o responsável por defender o organismo de doenças. As células mais atingidas são os linfócitos T CD4+ e esse vírus é capaz de alterar o nosso DNA para fazer cópias de si mesmo e se multiplicar. Quando esse vírus entra em um estágio avançado, se transforma na Aids.

A infecção se dá pelo sexo vaginal, anal e já se questiona sobre sexo oral, que na tabela de transmissão para HIV é citado como baixo índice de contagio – inferior a quatro casos em 10 mil atos sexuais; pelo o uso de seringas compartilhadas, transfusão de sangue contaminado, da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e na amamentação e através de instrumentos cortantes não esterilizados.

Informe-se

Hoje em dia, não se usa mais o termo soropositivo e nem aidético. E a ciência também avançou bastante. Os medicamentos antirretrovirais ajudam a manter a carga viral muito baixa, indetectável.

Áurea More, de 43 anos, também é portadora do vírus HIV e explica o conceito de I=I, que significa Indetectável = Intransmissível. “Depois de pesquisas muito longas e muito importantes, as pessoas que fazem o tratamento certinho se tornam intransmissíveis. E é isso que precisamos espalhar.” O que não significa que elas podem deixar de se cuidar e se proteger, viu?

Falando em proteção, você sabe o que é PEP e PREP? São siglas: a primeira é usada para Profilaxia Pós-Exposição, quando é feito o uso de medicamentos para reduzir o risco de infecção em situações de exposição ao vírus. Já a segunda é de Profilaxia Pré-Exposição, que funciona como um “anticoncepcional”, ainda em fase de pesquisa pelo SUS, mas já tem a sua eficiência testada e garantida.

“Eu ainda acrescentaria que precisamos naturalizar o sexo e não existe um modelo perfeito a ser seguido em termos de vivência sexual”, diz Áurea. “O HIV é só uma das muitas infecções sexualmente transmissíveis, como a sífilis e Hepatite C, muito mais grave.”

Áurea More é professora universitária e tem uma página no Facebook destinada a mulheres com HIV

A gente precisa ter aquela conversa…

Ao falarmos de homossexualidade, o estigma se mostra mais forte. “Enquanto dizem à pessoas heterossexuais que elas precisam se proteger para não engravidar sem planejamento, dizem às gays que elas precisam pensar se querem mesmo ter vários parceiros, porque você precisa tomar cuidado com quem está tendo relações”, conta Kako.

Não é bem assim. Monogamia não imuniza ninguém. HIV e Aids não escolhe seus portadores pela orientação sexual.

Nas nossas conversas, Kako e Áurea insistem: a gente precisa ter educação sexual mais completa e não falar só sobre camisinha, monogamia e gravidez não planejada. Precisamos de muito mais informação.

“Sinto também que precisamos banalizar HIV e Aids, no sentido de tornar essa conversa algo mais cotidiana, mais trivial, contrariando essa ideia de algo distante ou vergonhoso e que precisasse ser mantido em segredo. Sendo banal, as reações da sociedade seriam mais eficientes.” completa Kako. “Parar de tratar isso como batalha, uma luta”.